Fortalecimento da Proteção das Águas
O Parque Nacional da Serra do Gandarela, localizado em Minas Gerais, começa 2026 com a promessa de uma proteção ainda mais rigorosa de suas águas. Reconhecido como um local fundamental para a preservação de recursos hídricos e biodiversidade, o parque teve suas águas designadas como “Classe Especial” pelo Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio das Velhas (CBH Rio das Velhas). Essa aprovação, que ocorreu no final do ano passado, impede a liberação de efluentes de atividades industriais nas fontes que alimentam o parque, protegendo nascentes de rios vitais na região.
A gestora do parque, Tatiana Pereira, ressalta que essa decisão representa uma das conquistas mais significativas da unidade desde sua criação em 2014. O objetivo do parque é a proteção de aquíferos, rios, ecossistemas e espécies ameaçadas de extinção. “Com essa mudança, nascentes externas que abastecem rios dentro do parque agora estão sob a classificação mais estrita, o que garante a preservação de suas características naturais. Essas águas não podem mais receber efluentes de atividades econômicas”, afirma, satisfeita com o avanço.
Um dos rios que receberá essa proteção reforçada é o Ribeirão da Prata, cuja nascente se localiza na Serra do Gandarela. Esse rio, que é o principal afluente do Rio das Velhas, fornece cerca de 40% da água consumida pelas famílias da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). A nova classificação terá validade pelos próximos 20 anos e, conforme a análise do economista e conselheiro do parque, Tauan Fróes Rodrigues, também pode impulsionar o turismo na área. “Os cursos d’água que cortam o parque são importantes atrativos turísticos. Com a qualidade da água, posso consumi-la diretamente nas trilhas, desde que com os devidos cuidados. A região é um corredor ecológico preservado e possui um enorme potencial turístico”, destaca.
Desafios e Ameaças à Conservação
Ainda que as novidades tragam expectativa, a região tem enfrentado constantes ameaças, especialmente devido aos interesses da mineração nas sub-bacias do parque. O projeto Apolo, da Vale, é o mais notório. Após 15 anos sem avanços, a discussão sobre a concessão de licença foi retomada sob a gestão do governador Romeu Zema (Novo), que revisou a proposta. A mineradora alega que o projeto, que prevê uma cava de sete quilômetros de extensão e 200 metros de profundidade, foi “inovado e sustentável” ao excluir a construção de barragens.
Contudo, Daniela Campolina, coordenadora do grupo de pesquisa Educação, Mineração e Território da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), critica essa narrativa. “Não podemos arriscar um projeto com tamanhos impactos. A Vale afirma que não haverá alteração na dinâmica hídrica, mas isso é cientificamente equivocado. Não existe tecnologia que elimine o risco de destruição dos aquíferos nesse caso”, avalia.
Desde sua criação, em 2014, o parque é uma Unidade de Conservação (UC) de Proteção Integral, com a missão de proteger a Mata Atlântica e outras biodiversidades locais. Uma fonte anônima, preocupada com possíveis retaliações, lembra que a UC foi fruto de uma mobilização social que buscava proteger a água da RMBH, já fragilizada por eventos como os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho. “O projeto Apolo sempre foi uma preocupação desde os anos 2000”, relembra.
Uma Nova Esperança para as Águas
Em setembro de 2025, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) analisou o pedido de licenciamento do projeto Apolo e concluiu que ele é incompatível com a unidade de conservação, recomendando a negativa da licença. “Com a nova classificação hídrica, o projeto Apolo está ainda mais comprometido, uma vez que a área destinada ao lançamento de efluentes agora não é mais apropriada devido às novas características das águas de Classe Especial”, explica a fonte anônima.
No entanto, o conselheiro Tauan Fróes Rodrigues alerta que a região enfrenta também a pressão de mineradoras menores. “Estamos vendo um aumento de licenciamentos de pequenas minas, que podem ser uma estratégia do setor para contornar a legislação mais rigorosa aplicada a projetos maiores”, afirma Rodrigues.
Apesar das dificuldades, a mudança na classificação das águas para Classe Especial representa um avanço significativo na proteção dos recursos hídricos. Ronald de Carvalho Guerra, vice-presidente do CBH Rio das Velhas, sublinha que essa conquista mostra o comprometimento dos membros do comitê com a defesa das águas. “É um grande passo para garantir a qualidade da água na região e restringir atividades industriais e mineradoras. Somente a Classe Especial poderia proporcionar essa proteção”, comemora. O próximo passo será discutir essa nova classificação no Conselho Estadual de Recursos Hídricos, onde as decisões são tomadas de forma participativa e democrática.
