O Impacto da Inteligência Artificial nas Estratégias Empresariais
A inteligência artificial (IA) já se consolidou como uma realidade nas operações de empresas de diversos setores e tamanhos. De acordo com a pesquisa Panorama 2026, realizada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a previsão é que, em 2026, a IA se torne a principal prioridade estratégica para as empresas brasileiras. No entanto, a discrepância entre intenção e ação é visível, uma vez que a maioria dos negócios ainda faz investimentos limitados e não observa resultados concretos.
O estudo revela que mais de 60% das empresas ainda não conseguem registrar ganhos significativos com a implementação de IA. Essa situação evidencia um descompasso entre a intenção de adotar a tecnologia e a maturidade necessária para sua adoção efetiva no ambiente corporativo.
Entrevista com Virgílio Almeida: Desafios e Oportunidades da IA
Para compreender melhor as dificuldades e as oportunidades trazidas pela IA, o MM2032 conversou com Virgílio Almeida, professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Almeida é uma das principais referências internacionais em governança da internet e reguladoria de algoritmos. Ele é também autor de “Algorithmic Institutionalism”, obra onde defende que os algoritmos devem ser vistos como novas instituições que moldam o comportamento social e econômico.
Reconhecido pelo Prêmio Unesco-Uzbequistão de Ética em Inteligência Artificial em 2025, Almeida acredita que a inovação tecnológica deve estar alinhada a valores democráticos e à responsabilidade social, para que se torne verdadeiramente sustentável. Durante a entrevista, ele discutiu como a inteligência artificial está alterando a dinâmica de produção e decisão nas empresas.
“A inteligência artificial amplia a capacidade de as empresas processarem informações e preverem comportamentos, gerando ganhos de eficiência. No entanto, isso também significa que a tomada de decisão deixa de estar exclusivamente nas mãos das pessoas, passando a depender de sistemas algorítmicos. Para garantir um equilíbrio, é crucial que a eficiência não seja o único parâmetro considerado”, afirmou Almeida.
Algoritmos: Novas Instituições nas Empresas
Almeida destaca que os algoritmos não apenas realizam tarefas tecnológicas, mas também influenciam comportamentos e distribuem oportunidades dentro das organizações. Essa dinâmica se torna especialmente evidente em áreas como recrutamento e marketing, onde os sistemas de IA podem decidir quem recebe visibilidade ou prioridade.
“As empresas devem reconhecer que esses sistemas exigem regras claras e mecanismos de governança, assim como qualquer outra instituição que impacta a vida das pessoas”, enfatizou o professor Almeida.
Riscos Reputacionais: Desafios da Adoção da IA
Embora a inteligência artificial possa ser vista como uma vantagem competitiva, Almeida alerta para os riscos reputacionais que podem surgir. A perda de controle sobre os impactos de sistemas algorítmicos pode resultar em discriminação ou falta de transparência nas decisões, levando a reações negativas de consumidores e reguladores.
Um dos erros comuns entre as empresas brasileiras é tratar a IA como uma solução tecnológica importada, sem considerar seu impacto no contexto social local. Além disso, é um engano acreditar que a responsabilidade recai exclusivamente sobre o fornecedor da tecnologia, pois a empresa também tem um papel crucial em garantir a ética e a responsabilidade no uso da IA.
A Regulação da IA como Diferencial Competitivo
Almeida defende que a regulação da IA deve ser encarada como uma oportunidade e não como um obstáculo. “Empresas que se antecipam a essas exigências, adotando práticas de transparência e avaliação de impacto, têm maior chance de se destacar no mercado”, afirma o professor. Ele sublinha que o setor empresarial deve colaborar com os formuladores de políticas, contribuindo com boas práticas que protejam os direitos das pessoas, promovendo um clima de confiança.
O Papel do Setor Empresarial na Pesquisa e Desenvolvimento
Apesar de o Brasil ainda investir pouco em pesquisa e desenvolvimento em IA, Almeida acredita que o setor empresarial pode desempenhar um papel fundamental nesse processo. Ele sugere que as empresas invistam em pesquisa aplicada, formem parcerias com universidades e apoiem ecossistemas de inovação, sempre com um olhar voltado para a responsabilidade social.
“Quando a inovação tecnológica está alinhada com o interesse público, as empresas não apenas contribuem para o desenvolvimento do país, mas também fortalecem seus próprios negócios”, conclui Almeida.
Diretrizes para o Uso Ético da Inteligência Artificial
Por fim, o professor oferece conselhos práticos para empresários que desejam incorporar a IA em suas operações. Ele recomenda que vejam a IA como uma decisão estratégica e ética, não apenas técnica. Investir em governança, formar equipes diversas e constantemente avaliar os impactos dos sistemas são ações essenciais.
“O que nunca deve ser feito é delegar decisões críticas somente a algoritmos sem supervisão humana ou ignorar os efeitos sociais que essas tecnologias podem ter”, conclui. A IA deve ser uma ferramenta que potencializa capacidades humanas, e não uma forma de desresponsabilizar instituições e indivíduos.
