A Revolução dos Genéricos no Mercado de Emagrecimento
O mercado brasileiro de medicamentos emagrecedores está prestes a passar por uma transformação significativa. A partir de março, com o fim da patente da semaglutida, princípio ativo de medicamentos como Ozempic e Wegovy, as farmacêuticas estão se mobilizando para lançar versões genéricas a preços mais acessíveis, que devem variar entre 30% e 50% a menos do que os produtos originais. Um estudo recente da UBS BB Corretora, uma parceria entre o banco suíço UBS e o Banco do Brasil, projeta que o faturamento desses medicamentos, que atuam como agonistas de GLP-1, pode atingir R$ 20 bilhões neste ano, quase dobrando a estimativa de R$ 11 bilhões para 2025.
A chegada de genéricos é aguardada com expectativa, pois pode ampliar o acesso a tratamentos que, até agora, eram utilizados por uma parcela reduzida da população. De acordo com dados do relatório, apenas 1,1% dos adultos com sobrepeso e 2,5% dos obesos no Brasil utilizam esses medicamentos, enquanto nos Estados Unidos a taxa chega a 4,4% entre pessoas que sofrem de diabetes e sobrepeso.
Concorrência Aumenta com a Queda da Patente
Nelson Mussolini, presidente do Sindicato da Indústria de Produtos Farmacêuticos (Sindusfarma), aponta que o fim da patente deverá intensificar a concorrência no setor. Informações obtidas pela Folha na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) revelam que já existem 11 pedidos de registro para versões genéricas de semaglutida e sete para liraglutida, ativo do Victoza e Saxenda, cuja patente expirou em novembro do ano passado. Esses pedidos estão em análise ou aguardam o início da avaliação pela agência.
Para medicamentos biológicos, há um pedido que combina semaglutida com insulina icodeca, além de solicitações para liraglutida e semaglutida. Empresas como EMS, Eurofarma e Hypera já anunciaram investimentos na produção de genéricos.
Desafios de Acesso ao Tratamento
No entanto, o endocrinologista Bruno Geloneze, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), alerta que o impacto do acesso a esses medicamentos pode ser limitado. Mesmo com a redução de preços, o tratamento tende a permanecer restrito às classes A e B da população. “O efeito mais significativo pode ser nos lucros das farmacêuticas”, observa Geloneze.
A crescente obesidade no país agrava a situação. Conforme o World Obesity Atlas, 68% dos brasileiros estão acima do peso e 31% são considerados obesos. Entre 2006 e 2023, a obesidade aumentou de 11,8% para 24,3% e o sobrepeso avançou de 42,6% para 61,4%.
Uma Questão de Inclusão no SUS
Em relação à inclusão desses medicamentos no Sistema Único de Saúde (SUS), analistas como Vinícius Strano e André Salles acreditam que a chegada dos genéricos poderá reabrir o debate. A Comissão Nacional de Incorporações de Tecnologias (Conitec) rejeitou a oferta da semaglutida para obesidade em 2025, citando um impacto orçamentário de R$ 7 bilhões em cinco anos. No entanto, a possibilidade de preços mais baixos pode reacender discussões sobre sua inclusão no SUS.
Uma das iniciativas em andamento é a parceria entre a EMS e a Fiocruz, que visa transferir a tecnologia de produção das canetas emagrecedoras à fundação, buscando viabilizar a oferta do tratamento pelo SUS. A Anvisa também decidiu acelerar a análise de novas canetas emagrecedoras a pedido do Ministério da Saúde, apesar dos protestos do setor farmacêutico.
Regulação e Segurança no Uso
Com o aumento da demanda, preocupa também o uso inadequado das canetas emagrecedoras para finalidades não aprovadas, o que pode resultar em efeitos colaterais severos. A Polícia Federal já realizou operações contra a comercialização clandestina de versões dessas drogas, reforçando a importância da regulação e fiscalização adequadas. Mussolini enfatiza a necessidade de rigor nas inspeções para garantir a segurança dos consumidores.
À medida que novas moléculas, como o retatrutide da Eli Lilly, entram em desenvolvimento, a disputa no setor de emagrecimento se intensifica. Mussolini sugere que modelos de compartilhamento de risco entre o SUS e os planos de saúde podem ser uma solução para ampliar o acesso a esses tratamentos, desde que acompanhados de orientações médicas adequadas e mudanças no estilo de vida.
