Transformação Digital na Irrigação Agrícola
A adoção de sistemas digitais, que utilizam sensores e automação, está mudando a forma como a agricultura irrigada opera no Brasil. De acordo com a Netafim, uma referência global em soluções de irrigação, o país possui quase 10 milhões de hectares irrigados, porém, a maioria ainda adota práticas menos eficientes em comparação ao gotejamento.
Danilo Silva, gerente agronômico da Netafim, destaca a crescente utilização de tecnologias entre os produtores rurais. “Hoje, 84% dos agricultores utilizam alguma forma de tecnologia, seja ela aplicativos, plataformas ou sensores. Contudo, no que diz respeito a irrigação localizada e de precisão, ainda estamos dando os primeiros passos. A penetração de sensores e automação é baixa, o que indica uma grande oportunidade de crescimento e desenvolvimento na irrigação por gotejamento dentro da agricultura digital”, explica Silva.
Com o aumento das variações climáticas e o desafio trazido por secas prolongadas e chuvas intensas, o controle da umidade se torna cada vez mais essencial. “A digitalização da irrigação não é apenas uma tendência, mas uma necessidade estratégica. Os veranicos estão se prolongando, enquanto as chuvas se tornam intensas e mal distribuídas. Precisamos gerenciar nossos recursos de forma precisa, e isso só é possível com dados”, afirma o especialista.
Economia de Água e Energia com Tecnologia
Silva trouxe à tona resultados de projetos-piloto em diversas regiões do Brasil, que evidenciam a eficácia da tecnologia na irrigação. No Vale do São Francisco, que se estende entre a Bahia e Pernambuco, a irrigação por gotejamento, monitorada por sensores de umidade e pressão, foi essencial para cultivar uvas.
“Identificamos problemas de desuniformidade na pressão do sistema, o que afetava a distribuição da água e dos insumos. Após ajustes e a implementação do monitoramento digital, conseguimos economizar cerca de 33% de água e R$ 3.500 por hectare em energia elétrica”, detalha Silva.
Em Pedregulho, no Oeste de São Paulo, a combinação de sensores de umidade do solo e cálculos de reposição hídrica com base na evapotranspiração resultou em uma redução de 40% a 45% no consumo de água para a cultura do café. Segundo Silva, “a eficiência é sinônimo de competitividade. O produtor que compreende isso já se encontra à frente no mercado”.
Desafios da Conectividade e Capacitação
A tecnologia digital aplicada à irrigação possibilita um controle preciso no fornecimento de água e insumos, ajustando-se às necessidades das plantas e condições climáticas. Esse nível de controle pode não apenas aumentar a produtividade, mas também reduzir custos e tornar a agricultura mais resiliente às mudanças climáticas. No entanto, o avanço da agrotecnologia enfrenta barreiras estruturais e culturais.
Uma das principais dificuldades reside na infraestrutura e conectividade. Muitas áreas ainda carecem de uma cobertura de internet adequada, o que limita a utilização de plataformas digitais. Além disso, a falta de profissionais qualificados para interpretar os dados gerados e transformá-los em ações práticas é um obstáculo. Silva observa que muitos produtores, especialmente os mais tradicionais, ainda confiam unicamente em sua experiência e observação, o que pode ser arriscado em um cenário em rápida transformação.
O Futuro da Agricultura Digital
Por outro lado, Silva nota que um novo perfil de produtor, mais conectado e focado em resultados, está emergindo e impulsionando a adoção de ferramentas digitais. “Os produtores que conseguem ver o retorno sobre o investimento estão mais propensos a abraçar essas inovações”, diz ele. O mercado também pressiona por soluções digitais, especialmente na exigência de comprovação de manejo hídrico eficiente, especialmente por parte dos exportadores.
A próxima fase da agricultura digital, segundo Silva, envolverá a integração das tecnologias atualmente utilizadas de forma fragmentada. Ele acredita na convergência entre sistemas de irrigação, maquinário agrícola, análises climáticas, monitoramento de pragas, imagens de drones e dados do solo. Essa interconexão permitirá a geração automática de recomendações mais precisas para os agricultores, otimizando a utilização de insumos e aumentando a produtividade.
“Compreender os dados e agir no momento certo pode levar a uma redução de custos, ao uso mais racional de água e energia, e a uma produção mais sustentável”, conclui. No entanto, essa transformação exigirá também uma nova abordagem na formação profissional no setor, com a necessidade de perfis adaptáveis e capacitados para lidar com informações de diferentes áreas integradas.
Silva ressalta que a formação de profissionais multidisciplinares, que compreendam a interface entre agronomia, tecnologia e gestão de mercado, será crucial para traduzir dados em decisões rentáveis. “No fim das contas, a eficiência é a chave para a competitividade. O produtor que percebe isso já está um passo à frente no jogo”, finaliza.
