O Hip-Hop como Tecnologia Social
Quando se aborda a interseção entre tecnologia e economia digital, a discussão frequentemente gira em torno de softwares e inteligência artificial. No entanto, em Belo Horizonte, um movimento inovador está expandindo esse conceito. No Órbi Instituto de Ciência e Tecnologia (Órbi ICT), a inovação não se limita ao digital; ela também abraça a cultura, destacando a tecnologia social do Hip-Hop.
A provocação vem de Fred Maciel, conhecido como Negro F., um designer social e mobilizador cultural reconhecido na cena mineira de Hip-Hop. Para ele, o Hip-Hop transcende a simples expressão artística, representando um sistema tecnológico abrangente que impulsiona criatividade, engajamento e retorno econômico.
“Quando falamos sobre tecnologia, não nos referimos apenas ao digital. Tecnologia é tudo que o ser humano cria para organizar a vida, produzir soluções e transformar realidades. O Hip-Hop é exatamente isso”, explica Negro F., que é mestre em Humanidades pela Universidade de São Paulo (USP) e professor da Fundação Dom Cabral (FDC).
Uma Cultura Nascida da Periferia
Originado nos guetos de Nova York em 1973, o Hip-Hop se firmou como uma tecnologia social acessível, perfeitamente adaptável a diversas realidades. No Brasil, desde a década de 1980, essa cultura se enraizou, desenvolvendo novas linguagens que dialogam com as vivências urbanas e periféricas.
A cultura Hip-Hop é estruturada em cinco dimensões principais: o rap (MCing), que abrange a expressão verbal e poética; o DJ, que traz a engenharia sonora e a produção de batidas; o break, que se refere à dança e performance; o grafite, uma linguagem visual que serve tanto para a arte quanto para a demarcação territorial; e a consciência, que inclui saberes, memórias e reflexões políticas que conferem sentido ao conjunto.
“O Hip-Hop surgiu como uma resposta à ausência do Estado. Ele organiza as pessoas, cria um senso de pertencimento, desenvolve talentos e constrói identidades. Isso é tecnologia social em sua essência”, enfatiza Negro F., que conheceu o movimento aos 17 anos no Alto Vera Cruz e nunca mais se afastou. Atualmente, ele reside na Pedreira Prado Lopes, é presidente da rede Nação Hip-Hop Brasil e fundador de iniciativas como o Instituto Vamos Juntos Periferia e o empreendimento social Graffiti BH.
Da Cultura ao Faturamento
A indústria criativa impulsionada pelo Hip-Hop movimenta cifras significativas. Plataformas de streaming, festivais, produtos culturais e prêmios, tanto nacionais quanto internacionais, compõem uma cadeia produtiva robusta que vai além do entretenimento. “Hoje, o Hip-Hop está nas paradas de sucessos, movimenta grandes eventos e gera produtos culturais com alto valor simbólico e comercial. Não se trata apenas de arte, mas de economia”, defende Negro F.
Ele ressalta que as empresas podem se integrar a esse ecossistema de várias maneiras, seja através da coprodução de conteúdo, licenciamento de obras, patrocínios, desenvolvimento de produtos ou formação de talentos locais. Quando uma organização investe em cultura de maneira planejada, ela está apostando em inovação, reputação e novos mercados que poderão incrementar sua receita.
Essa percepção de tecnologia está alinhada com a nova abordagem do Órbi ICT. Localizado na Lagoinha, o espaço vem se estabelecendo como um polo de desenvolvimento digital e economia criativa, reunindo startups, grandes empresas e iniciativas culturais. Ao acolher o Hip-Hop, o Órbi demonstra que a inovação se origina também da diversidade de repertórios presentes nas periferias e da interação com os territórios.
Impacto Local e Retorno a Longo Prazo
Além do potencial criativo, o Hip-Hop fortalece economias locais e ajuda a moldar trajetórias profissionais. Iniciativas voltadas para a formação em grafite, dança e produção musical frequentemente se tornam portas de entrada para o primeiro emprego.
Para ele, o investimento em cultura também transforma a percepção sobre áreas historicamente marginalizadas. “Quando você investe em cultura, você proporciona visibilidade positiva. Isso altera a forma como a cidade vê esses locais e, por conseguinte, essas pessoas”, conclui.
