A Morte que Pode Marcar uma Virada
A execução de Erfan Soltani, um jovem de apenas 26 anos, nesta quarta-feira, sob a acusação de terrorismo, representa um ponto crítico na crise da República Islâmica do Irã. Sob o comando do aiatolá Ali Khamenei, de 86 anos, essa ação brutal não é apenas mais um capítulo na longa história de repressão do regime, mas pode se transformar em um catalisador para novas manifestações populares e uma resposta internacional mais severa, cujos efeitos vão além do Oriente Médio e podem impactar diretamente países como o Brasil.
Historicamente, a execução de um manifestante, especialmente de forma pública, é uma estratégia utilizada por regimes autoritários para instaurar o medo e a submissão. Contudo, essa medida pode ter o efeito contrário, transformando a vítima em um mártir e impulsionando a população a se mobilizar contra a opressão, em busca de liberdade e justiça. O corpo de Erfan, pendurado em praça pública, encapsula a indignação de uma sociedade que já não tolera a combinação perversa de moralidade religiosa e vigilância militar com a miséria econômica.
Consequências Potenciais da Repressão
A atual situação do Irã é alarmante. Com uma inflação crescente e uma moeda em colapso, a corrupção endêmica e a revolta popular contra os rígidos códigos morais impostos pelo clero se intensificam. O descontentamento teve início com uma greve de comerciantes que, afetados pela desvalorização da moeda e pela alta dos preços, exigiram mudanças. Embora o governo tenha prometido diálogo e até mesmo oferecido subsídios modestos, a insatisfação popular se volta contra a própria essência do regime.
O governo iraniano, em sua tentativa desesperada de se manter no poder, aplica o conceito de “guerra contra Deus” para deslegitimar os manifestantes, tratando-os como ameaças à ordem divina. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que controla os principais setores da economia e da segurança, continua a apoiar o regime por motivos de interesse e ideologia. A força que possuem é suficiente para manter o controle interno, mas a situação pode mudar com a possibilidade de uma intervenção militar externa.
Um Panorama Global e suas Implicações
A crise no Irã não é um fenômeno isolado. A recente guerra em Gaza e os pressões internacionais, especialmente dos Estados Unidos, fragilizaram a estrutura do regime. A antiga Pérsia desempenha um papel estratégico na geopolítica da Ásia Ocidental, e suas fronteiras com diversos países a tornam uma nação influente na região. Com 1,648 milhão de km² e mais de 92 milhões de habitantes, o Irã enfrenta um momento decisivo.
Durante a administração de Donald Trump, as tensões aumentaram, permitindo que o ex-presidente convocasse a população iraniana a continuar suas manifestações, prometendo apoio. No entanto, essa postura não é um gesto amável, mas uma declaração implícita de hostilidade, que certamente alimenta o sentimento antiamericano no Irã. Uma ação militar poderia unir a elite governante sob a justificativa da defesa nacional e transformar os manifestantes em “agentes estrangeiros” na percepção da população.
Impactos Econômicos para o Brasil
A relação comercial entre Brasil e Irã é significativa, totalizando aproximadamente US$ 3 bilhões, com um foco especial no agronegócio. A ameaça de Trump em impor tarifas adicionais de 25% sobre países que fazem negócios com o Irã poderia desencadear sanções secundárias, desafiando a normalidade das relações comerciais internacionais. O que está em jogo é o direito de punir que os EUA exercem sobre qualquer nação que mantenha laços comerciais com o Irã.
Tradicionalmente, o Brasil tem buscado uma postura autônoma em sua política externa, promovendo o diálogo como princípio fundamental. No entanto, a pressão por alinhamentos forçados por fatores externos, como a recente repressão no Irã, exige uma reavaliação das relações do Brasil com o país. A imagem de execuções e repressões pode impactar negativamente a percepção moral e política sobre manter vínculos com o Irã, levando empresas e instituições financeiras brasileiras a agirem com mais cautela.
