Um Alerta Sobre a Precarização na Cultura
A maestra Lígia Amadio foi demitida do cargo de diretora musical e regente titular da ‘Orquestra Sinfônica de Minas Gerais’ cerca de quarenta dias após fazer denúncias sobre os salários irrisórios que os músicos recebem. Sua demissão ocorreu logo após sua participação em uma audiência pública na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, realizada em novembro. Durante o evento, Amadio afirmou que a orquestra é uma das mais mal remuneradas do Brasil e denunciou a alarmante precarização do trabalho dos músicos.
No depoimento, a maestra destacou que os músicos de fila recebem apenas R$1.618,72 por mês, que representa aproximadamente R$66,00 diários. Além disso, os músicos autônomos recebem cachês de apenas R$100,00 por cinco horas de trabalho. Em um discurso emocionado, Amadio criticou a falta de atenção do Estado em relação a um corpo artístico que faz parte do patrimônio cultural de Minas Gerais, pedindo que o assunto fosse tratado com a gravidade que merece.
“É inaceitável que um governo considere justo um salário de R$1.600,00 para um músico que se dedicou por pelo menos 20 anos à formação acadêmica”, desabafou Amadio, que foi amplamente aplaudida durante sua fala. A demissão da maestra, que se tornou a única mulher a liderar a orquestra em seus 50 anos de existência, gerou grande repercussão.
A decisão teve forte apoio dos colegas músicos. O Sindicato dos Músicos Profissionais de Minas Gerais se manifestou em nota, criticando a Fundação Clóvis Salgado e apontando uma contradição evidente entre a alegação de falta de recursos e o anúncio de uma programação extensa para 2026, ano em que a fundação celebrará 55 anos e a orquestra completará 50.
O Silêncio e a Retaliação
Em resposta às reclamações, a Fundação Clóvis Salgado limitou-se a mencionar uma “readequação” e a intenção de contratar “regentes de renome”, sem abordar diretamente as graves denúncias apresentadas por Amadio. O silêncio da instituição sobre a questão da precarização salarial e as condições de trabalho dos músicos levanta a suspeita de que sua demissão pode ter sido uma retaliação política contra a postura firme da maestra em defesa de seus colegas.
Esse episódio ilustra, mais uma vez, as consequências da política de austeridade promovida pelo governo de Romeu Zema, que impacta negativamente a cultura e seus trabalhadores, mesmo em um estado que possui o terceiro maior orçamento do Brasil. O afastamento de uma profissional renomada que se dispôs a denunciar injustiças expõe não apenas a opressão política, mas também as dificuldades enfrentadas pelas mulheres que buscam espaço e reconhecimento em áreas dominadas por homens.
As vozes que se levantam em defesa da cultura e dos direitos dos trabalhadores precisam ser ouvidas. O caso de Lígia Amadio destaca a urgência de um debate sobre as condições de trabalho na cultura e a necessidade de valorização dos profissionais da área. É fundamental que a sociedade e os governantes atentem para a importância da música e das artes como pilares da identidade cultural e do desenvolvimento social.
