Entenda a Disfunção Cricofaríngea Retrógrada
Crescemos ouvindo nossas mães nos ensinando a reprimir certas funções corporais, como soltar gases, seja por cima ou por baixo. Quando éramos crianças e “cometíamos” algum deslize, a reprimenda era imediata, com a orientação de que deveríamos nos conter até chegarmos ao banheiro. Se arrotássemos após uma refeição ou ao tomar refrigerantes, a bronca vinha na mesma hora: “Isso é falta de educação!”.
Entretanto, com o passar dos anos, aprendemos que essa repressão pode ter consequências graves. Uma experiência pessoal me marcou: minha prima, após ser diagnosticada com câncer no intestino, recebeu uma recomendação médica crucial: nunca segure os gases, pois isso é prejudicial à saúde do intestino. A advertência veio diretamente de um profissional e, após acompanhá-la durante o tratamento, percebi a importância dessa orientação.
Pode parecer curioso, mas a dificuldade em arrotar não se limita a ser um mero incômodo. Recentemente, especialistas têm abordado uma condição médica pouco conhecida chamada disfunção cricofaríngea retrógrada (DCF-R). Reconhecida oficialmente em 2019, a DCF-R tem sido cada vez mais discutida, especialmente devido ao aumento de relatos nas redes sociais que permitem a troca de experiências entre os pacientes.
O otorrinolaringologista Geraldo Santana esclarece que, na DCF-R, o ar fica preso no estômago, resultando em sintomas como barriga estufada, dor, sensação de pressão no peito, dificuldade para engolir e até mesmo sons estranhos na garganta. Esses sintomas, que podem ser confundidos com distúrbios digestivos simples, impactam diretamente o bem-estar emocional e social dos afetados. Muitos pacientes relatam sentir ansiedade, constrangimento e até depressão, levando-os a evitar sair de casa, participar de encontros sociais e até mesmo a comer em público.
O médico Robert W. Bastian, de Chicago, identificou o músculo cricofaríngeo como a raiz do problema e apresentou um tratamento inovador utilizando toxina botulínica, que é minimamente invasivo. Este procedimento consiste na aplicação de pequenas doses da substância no músculo afetado, permitindo que a musculatura relaxe e o ar preso seja liberado de forma natural.
O Dr. Geraldo Santana ressalta que essa abordagem não envolve cirurgia aberta, sendo um procedimento rápido e seguro, que oferece alívio quase imediato para muitos pacientes. Em algumas situações, os médicos podem recomendar a prática de exercícios respiratórios e acompanhamento contínuo, o que ajuda a manter os resultados e a minimizar o desconforto cotidiano.
Se você tem experimentado barriga estufada, gases em excesso e dificuldade para arrotar, é fundamental buscar ajuda de um especialista, preferencialmente um otorrinolaringologista, para uma avaliação apropriada. O diagnóstico precoce e o tratamento adequado fazem toda a diferença na abordagem dessa condição, que, apesar de ser pouco conhecida, é mais prevalente do que se imagina.
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