Como o cinema brasileiro se afirma no cenário internacional
No discurso de posse na Academia Brasileira de Letras, o renomado escritor Ariano Suassuna evocou uma citação de Machado de Assis, que ilustra perfeitamente o dualismo entre o Brasil real e o Brasil oficial. Ele ressaltou: “O ‘país real’, esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o ‘país oficial’, esse é caricato e burlesco.” Essa dicotomia não diz respeito apenas à política, mas também permeia a cultura e a percepção que temos de nós mesmos e que o mundo tem de nós.
É neste contexto que o cinema brasileiro, ao atingir novos níveis de reconhecimento, transcende o papel de mero entretenimento e se transforma em uma expressão genuína do Brasil real. “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, é um exemplo claro disso ao conquistar quatro indicações ao Oscar — Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Escalação de Elenco e Melhor Ator, com Wagner Moura. Esse feito coloca o filme ao lado de “Cidade de Deus”, um marco do cinema nacional, e o posiciona nas categorias mais prestigiadas da indústria cinematográfica.
Para compreender por que essa conquista “lava a alma” do Brasil real, é necessário voltar à literatura. O desafio enfrentado tanto por um Nobel quanto por um indicado ao Oscar é romper a barreira da língua. Culturalmente, a língua pode ser vista como uma Muralha da China, separando mundos e impondo hierarquias. Milan Kundera, em seu ensaio “A Cortina”, argumenta que o romance ocidental surgiu para explorar a condição humana, mas a língua modela o escritor e limita o alcance de sua obra.
Vale lembrar que Kundera conquistou reconhecimento internacional escrevendo em francês, e não em tcheco, como se a língua exigisse um “passaporte” para o reconhecimento. No cinema, essa realidade é ainda mais desafiadora. Ao contrário da literatura, onde a tradução é uma ponte necessária e respeitada, no audiovisual, o idioma muitas vezes atua como um filtro: o sotaque é um obstáculo e as legendas, uma resistência.
Assim, há uma diferença significativa entre competir pela categoria de “Melhor Filme Internacional” e pela de “Melhor Filme”. No primeiro, o cinema estrangeiro é reconhecido, enquanto na segunda, ele deixa de ser periférico e ocupa o espaço principal. Neste sentido, “O Agente Secreto” se posiciona à porta dessa sala principal com a audácia de afirmar: “Nós também somos o mundo”.
Recife: Um Microcosmo do Brasil
O diretor Kleber Mendonça Filho transforma Recife — uma cidade emblemática do Nordeste brasileiro, fundada em 1537 — em um microcosmo que reflete as experiências do Brasil. De maneira crua e visceral, ele expõe a fricção constante entre o Brasil oficial e o Brasil real, apresentando uma experiência estética que não se limita a explicar, mas que revela. É nesse momento que a barreira linguística começa a se desfazer. O público internacional pode não dominar o português, mas reconhece a essência da obra: a atmosfera, o conflito, o trauma, as feridas da humanidade, a alegria que persiste mesmo nas sombras, e a dignidade que insiste em permanecer.
A presença do Brasil no Oscar, ao longo das décadas, foi vista como um reconhecimento passageiro, uma espécie de “clube linguístico” onde o inglês estabelecia normas estéticas e morais. A condição humana, muitas vezes, parecia ser completa somente quando expressa no idioma anglo-saxão. O cinema de outras línguas era frequentemente relegado a um “setor internacional”, um espaço restrito ao reconhecimento e ao prestígio.
Porém, essa realidade está se transformando. O mundo avança, e o público agora se acostuma com a diversidade linguística, impulsionado pelo streaming e festivais globais de cinema. Filmes de qualidade não podem mais ser rotulados como “estrangeiros” sem confrontar a onda de xenofobia que se propaga por várias partes do mundo. “Ainda Estou Aqui”, que conquistou o prêmio de “Melhor Filme Internacional”, abriu as portas para essa nova realidade, e “O Agente Secreto” consolida esse espaço ao insistir em sua presença central na premiação.
Tradicionalmente, o cinema americano favoreceu uma concepção específica de carisma, presença e “centralidade cultural”, exigindo que os protagonistas fossem percebidos como universais. A indicação de Wagner Moura vai além de uma conquista individual; é um marco que desafia essa normatividade. Ele representa um brasileiro que não apaga suas raízes e identidade, trazendo seu corpo e seu sotaque para o primeiro plano. Aquilo que antes era considerado um ruído é agora interpretado como estilo. “O Agente Secreto” fala sem pedir desculpas, transformando a estética local em universal e fazendo com que o mundo leia as legendas como nós.
