Desafios Econômicos e Dependência de Benefícios
Sete anos após o trágico rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), a população ainda vive sob a sombra da economia local abalada. Com o fim dos pagamentos mensais aos atingidos pela tragédia, muitos moradores enfrentam uma nova incerteza financeira. O Programa de Transferência de Renda (PTR), parte do acordo de reparação assinado entre a Vale e o Governo de Minas Gerais em 2021, garantiu um depósito mensal de meio salário-mínimo para adultos considerados atingidos, com valores maiores para crianças e adolescentes. Para os familiares das vítimas e moradores das áreas mais impactadas, essa quantia era de um salário mínimo por mês.
A Vale comprometeu-se a destinar R$ 4,4 bilhões a um fundo para suprir os repasses até que esse valor e sua rentabilidade fossem alcançados. Este montante foi integralmente atingido em outubro do ano passado, levando à suspensão temporária dos pagamentos, o que gerou um impacto negativo nas vendas do comércio local. Uma decisão judicial em novembro determinou a retomada das transferências de forma emergencial. Durante o período em que os depósitos foram interrompidos, comerciantes relataram uma queda acentuada nas vendas.
Impactos no Comércio Local
Vitória Cardoso dos Santos, proprietária de uma loja de cosméticos, compartilha sua experiência: “Nosso faturamento caiu 60% enquanto os auxílios estavam suspensos. As pessoas começaram a priorizar o pagamento de dívidas quando perceberam que os repasses haviam terminado”. Com sete anos de experiência no comércio local, Vitória observa que os preços subiram em vários setores desde o início das transferências, ressaltando a crescente dependência da cidade em relação a esses recursos.
Rubens Rossi e Sueli Maria, donos de uma papelaria, também presenciaram uma queda de 40% nas vendas durante a interrupção do PTR. Eles relatam dificuldades para contratar funcionários, destacando que muitas empresas na região são formadas por familiares. Por outro lado, um gerente de uma rede varejista local, que preferiu não se identificar, afirmou que, apesar de haver vagas abertas, a procura por emprego não aumentou durante a suspensão dos pagamentos.
Desafios Estruturais e Planejamento Econômico
O professor Bernardo Campolina, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), enfatiza que a transferência de recursos foi feita diretamente aos atingidos por anos, sem um planejamento público que preparasse a população para o fim do programa. “Um número significativo de pessoas passou a depender desse auxílio, o que movimenta a economia local. Contudo, a cidade não conseguiu diversificar suas atividades econômicas além da mineração”, afirma Campolina.
A Prefeitura de Brumadinho, em resposta, destaca que está desenvolvendo políticas voltadas para a diversificação econômica, com foco em turismo, economia criativa e formação profissional, com o objetivo de reduzir a dependência do auxílio e aumentar a circulação de renda no município. “O desafio que o fim do PTR impõe é real, mas Brumadinho continua a trabalhar para construir um futuro além da tragédia, valorizando sua cultura e potencial de desenvolvimento”, explica a administração municipal.
Altas nos Aluguéis e Consequências Diretas
A diretora de reparação da Vale, Gleuza Jesué, afirma que a empresa está investindo na capacitação da mão de obra local e na melhoria dos negócios na região. Em relação ao PTR, ela ressalta que a companhia já havia realizado pagamentos emergenciais de R$ 2,4 bilhões entre 2019 e 2021 e que, após o acordo, destinou R$ 4,4 bilhões ao programa, caracterizado como a solução definitiva para o pagamento emergencial.
Com a demanda por moradias aumentando devido à chegada de funcionários da Vale e das empresas terceirizadas envolvidas nas ações de reparação, os aluguéis dispararam. João Castro, proprietário de uma imobiliária local, relata que os preços dos aluguéis dobraram após a tragédia, alcançando atualmente 50% acima dos valores praticados antes de janeiro de 2019. “Muitas famílias que não tiveram aumento de renda foram severamente prejudicadas, com proprietários exigindo devoluções dos imóveis para alugá-los a empresas. Isso forçou muitos a deixarem a cidade”, complementa.
Visões Contrapostas Sobre o Acordo de Reparação
A diretora da Vale reconhece as elevações nos aluguéis, mas defende que a companhia incentiva as empresas terceirizadas a contratar mão de obra local e que são responsáveis pelo alojamento dos colaboradores que vêm de fora. Por sua vez, a Prefeitura também procura inserir Brumadinho em programas de habitação social e facilita o acesso a crédito para reformas, além de considerar novas formas de apoio à moradia para famílias de baixa renda.
Nayara Porto, presidente da Avabrum, associação que representa as vítimas da tragédia, critica o modelo de indenização definido no acordo de reparação. “Embora o dinheiro seja amplamente celebrado em Brumadinho, para nós, familiares, é uma lembrança dolorosa, um dinheiro que representa 272 vidas perdidas. Esse valor deve se transformar em um legado e não apenas ser considerado um auxílio”.
