Abertura das Audiências e o Caminho Judicial
Era uma sexta-feira comum, e Nayara Porto, então com 27 anos, estava na cozinha preparando um pudim, que era a sobremesa favorita do marido, Everton Lopes Ferreira, de 32 anos. Após colocar o doce no forno, ela ouviu a vizinha mencionando o colapso da ‘barragem da Vale’. Nayara, em um relato emocionado para a jornalista Mara Régia, no programa Natureza Viva da Rádio Nacional, relembra: ‘Eu fiquei sem entender. A vizinha me perguntou se meu marido estava em casa e, ao confirmar que ele estava no trabalho, ela me informou sobre a tragédia’. O desespero tomou conta dela ao perceber a gravidade da situação: ‘Tentei contato várias vezes, mas o telefone não completava as chamadas. Finalmente, consegui me comunicar com um amigo dele, que escapou da lama por um milagre. Ele me aconselhou: ‘Ora, pede a Deus’”.
O acidente, que a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego do Feijão (AVABRUM) classifica como ‘tragédia-crime’, ocorreu por volta do meio-dia no dia 25 de janeiro de 2019, resultando na morte de 272 pessoas. Este domingo marca 2.557 dias desde a tragédia, e até o momento, ninguém foi responsabilizado criminalmente pela catástrofe.
Possibilidade de Julgamento e Responsabilização
Após sete anos do desastre, há uma expectativa de que 15 pessoas possam ser chamadas a responder judicialmente por suas ações. As audiências de instrução na 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte começam no dia 23 de fevereiro e se estenderão até maio de 2027, com oitiva de vítimas não letais, testemunhas e réus envolvidos. Ao final deste processo, a juíza federal Raquel Vasconcelos Alves de Lima pode decidir pela realização de um júri popular.
Entre os envolvidos, estão onze ex-diretores, gerentes e engenheiros da Vale, privatizada em 1997, além de quatro empregados da TÜV SÜD, empresa alemã que monitorava a barragem que colapsou. A jornalista Cristina Serra, autora do livro ‘Tragédia em Mariana’, relaciona o incidente de Brumadinho a outros desastres ambientais, como a ruptura da barragem de Mariana em 2015 e o afundamento do solo em Maceió, ressaltando a falta de responsabilização criminal em todos os casos.
Críticas à Indústria de Mineração e à Fiscalização
Em entrevista ao programa Natureza Viva, Cristina Serra destaca que esses episódios são resultado de uma ‘irresponsabilidade’ das empresas de mineração, que priorizam os lucros em detrimento das medidas de segurança necessárias. Ela critica a atuação dos órgãos públicos de fiscalização, que segundo ela, falham em seu papel ao não realizar inspeções adequadas e simplesmente aceitarem a documentação apresentada pelas mineradoras como verídica.
A jornalista ressalta que ‘os processos de licenciamento e fiscalização são excessivamente burocráticos’, o que pode contribuir para a ocorrência de tragédias como a de Brumadinho. Ela co-apresenta o programa Brasil no Mundo, transmitido aos domingos na TV Brasil, juntamente com os jornalistas Jamil Chade e Yan Boechat.
Posicionamento da Vale e da Samarco
Em resposta à Agência Brasil, a Vale optou por não comentar a ação judicial, mas enumerou várias iniciativas de reparação em andamento na região afetada. A empresa informou que espera concluir 81% do Acordo Judicial de Reparação Integral até dezembro de 2025, e que está investindo em ações de recuperação socioambiental e segurança hídrica.
A Samarco, responsável pelo desastre de Mariana, também se manifestou, expressando solidariedade às comunidades afetadas e reafirmando seu compromisso com a reparação dos danos causados, além de mencionar a assinatura do Novo Acordo do Rio Doce em 2024, que estabelece a responsabilidade pela condução das ações de reparação.
Homenagem às Vítimas
Neste domingo, às 11h, a AVABRUM realizará um ato em memória das 272 vítimas da barragem da Mina Córrego do Feijão. O evento ocorrerá no Letreiro de Brumadinho, na entrada da cidade, como uma forma de lembrar e honrar aqueles que perderam suas vidas na tragédia.
