Desafios do Setor Elétrico Brasileiro
O sistema elétrico brasileiro enfrenta um cenário paradoxal: enquanto há um excesso de energia disponível, isso não se traduz em suprimento suficiente durante os períodos de alta demanda, especialmente em dias quentes. Esse fenômeno se torna ainda mais evidente em horários críticos, quando a demanda por energia elétrica atinge picos, dificultando o equilíbrio entre o que se gera e o que se consome.
Nos últimos anos, a evolução das fontes renováveis, como a energia solar e eólica, trouxe benefícios significativos à matriz energética do Brasil, mas também revelou vulnerabilidades. Para lidar com essa situação, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) tem implementado cortes na produção de energia gerada por essas fontes, conhecido como curtailment, especialmente em horários de alta intensidade solar e de vento.
Um exemplo claro da situação ocorreu em agosto de 2023 e outubro do ano anterior, quando cortes significativos no fornecimento deixaram diversos estados sem luz. A interrupção, embora necessária para evitar sobrecargas, provoca perdas financeiras para os empreendimentos de energia renovável, que se veem obrigados a compensar sua produção por meio de compras no mercado livre.
Atualmente, os geradores renováveis buscam compensações financeiras do governo, uma demanda que ainda encontra resistência. A situação é complexa, principalmente diante da crescente demanda por energia, que atingiu um pico de 99,7 gigawatts (GW) em dezembro do ano passado, conforme dados do ONS.
O Que Está Acontecendo com a Demanda?
A alta no consumo de energia no Brasil não é um problema em si; na verdade, reflete um padrão natural, que se intensifica principalmente à tarde e à noite. Essa é a hora em que a maioria das pessoas retorna do trabalho e liga aparelhos como ar-condicionado. No entanto, a geração de energia solar e eólica, que são intermitentes, não coincide com esse aumento de demanda – especialmente à noite, quando o sol se põe e a produção cai.
Entre 9h e 16h, quando a capacidade de geração solar atinge seu pico, o ONS já tomou medidas para interromper a produção de parques eólicos e solares, a fim de evitar sobrecargas. Isso se torna ainda mais crítico nos fins de semana, quando a demanda da indústria e do comércio diminui, resultando em cortes ainda mais drásticos.
Um Olhar para o Futuro
No planejamento de médio prazo, o ONS alertou sobre a possibilidade de um colapso em 2026, fruto da falta de flexibilidade do sistema elétrico, que se intensifica com o crescimento das fontes renováveis. Olhando para o futuro, o desafio central será equilibrar a oferta e a demanda, especialmente porque as fontes renováveis são intermitentes.
O cenário de 2025 tem sido conturbado, não apenas pelos apagões, mas também por episódios de tensão no ONS, que quase resultaram em uma nova pane geral. Apesar da pressão das usinas de energia renovável por indenizações, ações recentes do governo, como o veto do vice-presidente Geraldo Alckmin a compensações, complicam ainda mais a situação.
Mais uma vez, os riscos financeiros recairão sobre os consumidores, pois eventuais compensações podem acabar refletidas nas tarifas de energia. Sob pressão, o Ministério de Minas e Energia iniciou uma consulta pública para discutir compensações para as empresas afetadas pelos cortes.
Reservatórios e Chuvas: Um Cenário Preocupante
Ainda há preocupação com a situação das hidrelétricas em meio a um cenário de chuvas abaixo da média. O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) prevê um volume de chuvas inferior ao esperado, o que pode afetar a capacidade dos reservatórios, que atualmente estão em apenas 42,88% de sua capacidade total.
Esses reservatórios, que terminaram o ano anterior com níveis preocupantes, obrigam o governo a tomar medidas preventivas, como a redução da vazão da hidrelétrica de Furnas, o que gera um aumento nos custos da energia, especialmente durante os picos de demanda.
Busca por Soluções Sustentáveis
O setor elétrico brasileiro está em um momento crítico e a falta de controle sobre a geração das fontes renováveis pode resultar em uma drástica crise financeira. Especialistas sugerem que novos investimentos em infraestrutura de transmissão e regulamentações para megabaterias são urgentes. Além disso, é fundamental estimular investimentos em empreendimentos que possam aproveitar melhor a energia gerada.
A geração distribuída por placas solares é uma alternativa crescente, mas que precisa ser bem integrada ao sistema para reduzir a pressão sobre a rede elétrica. A capacidade instalada de micro e minigeração já representa uma parte significativa do consumo nacional e sua expansão precisa ser planejada com cuidado.
No fim, o equilíbrio entre a produção renovável e a demanda de energia exige uma reavaliação das estratégias do sistema elétrico, buscando soluções que atendam tanto as necessidades atuais quanto as futuras.
