Uma Queda que Não Alivia a Violência
Em 2025, o Brasil registrou 80 assassinatos de pessoas transexuais e travestis, conforme o dossiê da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), que será divulgado nesta segunda-feira (26). Embora esse número represente uma redução de 34% em relação ao ano anterior, o país continua liderando o ranking mundial de crimes desse tipo.
Os dados foram coletados através de um minucioso processo de monitoramento de notícias, denúncias feitas diretamente às organizações da comunidade trans e registros públicos. A presidenta da Antra, Bruna Benevides, ressalta que, apesar da diminuição no número absoluto de homicídios, o aumento das tentativas de homicídio indica que a redução não reflete uma diminuição real da violência enfrentada por essa população vulnerável.
No entender de Benevides, a queda nos assassinatos pode ser atribuída à subnotificação, ao recuo da cobertura midiática sobre o tema, ao medo disseminado entre as vítimas e à desconfiança nas instituições de segurança e justiça. “As pessoas trans estão cada vez mais temerosas, afetadas por um contexto de descrédito que as impede de buscar proteção”, afirma.
Os Estados com Maior Registro de Violência
Ceará e Minas Gerais se destacaram como os estados mais violentos em relação a assassinatos de pessoas trans, ambos com oito registros no último ano. A Região Nordeste é a que concentra o maior número de casos, totalizando 38 mortes, seguida pelo Sudeste, com 17, o Centro-Oeste com 12, o Norte com sete e o Sul com seis.
Curiosamente, cerca de 67% dos homicídios ocorreram em cidades do interior, enquanto apenas 32% foram registrados em capitais. Entre as vítimas, o dossiê revela que travestis e mulheres trans, predominantemente jovens, são as mais afetadas, com maior incidência na faixa etária de 18 a 35 anos. O dado se agrava ao mostrar que as pessoas negras ou pardas, em situações de vulnerabilidade, são as que mais sofrem com essa violência.
Recomendações e a Necessidade de Ação
Além de traçar um diagnóstico alarmante, o dossiê propõe várias recomendações ao governo, ao sistema de justiça e às instituições de direitos humanos. O objetivo é promover um diálogo que busque soluções concretas para romper o ciclo de impunidade e escassez que caracteriza a vida de pessoas trans no Brasil. Bruna Benevides salienta que é fundamental implementar políticas públicas específicas voltadas para essa população, com um olhar atento à produção de dados oficiais, à formação contínua das forças de segurança e do sistema judiciário, bem como ao enfrentamento direto das agendas antitrans institucionais.
A apresentação da nona edição do dossiê “Assassinatos e Violências Contra Travestis e Transexuais Brasileiras” ocorrerá em uma cerimônia no auditório do Ministério dos Direitos Humanos, onde haverá a entrega oficial do documento a representantes do governo federal. Este ato é uma tentativa de inserir a questão da violência contra pessoas trans na pauta pública e buscar ações efetivas que garantam a segurança e os direitos dessa população.
