Possíveis Consequências da Redução da Carga Horária
Especialistas e representantes do setor produtivo ouvidos pela CNN Brasil expressam preocupações a respeito do impacto que a possível aprovação do fim da escala 6×1 no Congresso Nacional pode ter sobre o mercado de trabalho no Brasil. Os setores de comércio, serviços e indústria são os mais afetados por essa mudança, que pode comprometer as dinâmicas já estabelecidas.
A principal inquietação, segundo entidades empresariais, é a redução da produtividade. A diminuição das horas de trabalho semanais, argumentam, poderá comprometer a capacidade de manter o mesmo nível de produção de bens e serviços. Isso, por sua vez, tende a pressionar os custos e impactar os preços ao consumidor.
Fernando Guedes, presidente-executivo da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), ressalta que atualmente a produtividade do trabalhador brasileiro corresponde a cerca de 23% da produtividade de um trabalhador americano. “Quando você reduz a jornada de trabalho, pressiona ainda mais, com efeitos claros e concretos sobre a economia como um todo”, adverte Guedes.
Um estudo elaborado pela Federação das Indústrias de Minas Gerais sugere que a redução da jornada de trabalho para até 40 horas semanais, sem um correspondente aumento na produtividade, poderá ter um impacto significativo no faturamento dos setores produtivos, resultando em uma diminuição da atividade econômica do país em até 16%.
Impactos Diretos no Consumo
O setor industrial manifesta que os efeitos em cadeia dessa possível mudança impactarão diretamente o bolso dos consumidores. Sendo assim, como as empresas não teriam margem para absorver os custos adicionais que advêm da redução da carga horária, esses seriam repassados aos preços dos produtos finais.
Um exemplo impactante, fornecido por empresários do setor calçadista, ilustra essa preocupação. Atualmente, um calçado que custa R$ 50 para ser produzido chega ao mercado por cerca de R$ 125. Caso a jornada de trabalho seja reduzida e haja um aumento estimado de 12% nos custos de produção, o preço de produção subiria para R$ 56. Isso poderia elevar o custo final ao consumidor para aproximadamente R$ 149.
“O aumento do custo é imediato, porque não temos condições de absorver um impacto tão grande. O preço do calçado ficaria impraticável no mercado interno e, para exportação, nem se fala”, declara Junior Cesar Fans, diretor do Sindinova.
Além disso, representantes dos setores de comércio e serviços enfatizam que a proposta foi apresentada sem uma discussão aprofundada sobre as condições atuais do mercado de trabalho, especialmente em um cenário onde a produtividade já é considerada baixa.
“Estamos discutindo algo sem considerar os efeitos que isso terá para o setor de comércio e serviços, que podem ser devastadores. A proposta foi feita com as melhores intenções, mas sem levar em conta a realidade, a matemática e a capacidade das empresas de absorver uma mudança tão radical”, afirma Fabio Pina, assessor da FecomercioSP.
A Relação entre Produtividade e Qualificação
Para os especialistas, a produtividade está intimamente ligada à escolaridade, tecnologia e qualificação da mão de obra — fatores que precisam ser desenvolvidos antes de qualquer redução significativa da jornada de trabalho, sob risco de comprometer o crescimento econômico.
O governo, por sua vez, considera o tema prioritário neste ano e defende que a proposta visa melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores, uma argumentação que ainda está em debate no Congresso Nacional.
