Incidentes Reacendem Debate sobre Segurança da Mineração
Comemorando os sete anos da tragédia em Brumadinho (MG) no último domingo (25), a mineradora Vale se viu envolvida em novos incidentes relacionados às suas atividades. Na madrugada do mesmo dia, foram registrados vazamentos em duas minas da empresa na cidade de Congonhas (MG): primeiro na mina de Fábrica, seguido por outro na mina de Viga na segunda-feira (26). Embora não tenham sido registrados feridos, a prefeitura de Congonhas confirmou danos ambientais significativos, atribuídos ao carreamento de sedimentos e ao assoreamento de cursos d’água que afluem para o Rio Maranhão.
A Vale, em resposta a um ofício da administração municipal, decidiu suspender as operações nas duas minas afetadas. A ação foi acompanhada por uma determinação do governo estadual de Minas Gerais, que impôs à mineradora a obrigação de implementar uma série de medidas emergenciais. Dentre essas, estão a limpeza da área afetada e o monitoramento do curso d’água contaminado.
Além de seguir estas diretrizes, a Vale terá que apresentar um plano abrangente para a recuperação ambiental, que inclui desassoreamento e restauração das margens dos rios impactados. A empresa também está sujeita a uma multa, devido à poluição e degradação dos recursos hídricos, além de não ter comunicado os vazamentos em um prazo adequado de duas horas após a ocorrência.
Cenário de Impunidade e Mobilização Social
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) fez questão de lembrar que o rompimento em Brumadinho, que resultou na morte de 272 pessoas, continua sem uma solução satisfatória. “A empresa não foi responsabilizada e continua a operar sob uma lógica de mineração predatória, causando sérias consequências socioambientais nos locais onde atua”, ressaltou um integrante do movimento. Na região, membros do MAB permanecem em diálogo com comunidades, sindicatos e autoridades, reforçando a importância da participação popular na fiscalização e na implementação da Política Nacional das Populações Atingidas por Barragens (PNAB).
Impactos Ambientais das Minas de Fábrica e Viga
No caso do rompimento na mina de Fábrica, o material se espalhou pelo dique Freitas, resultando em sérios impactos ambientais. Foi relatado um vazamento de aproximadamente 263 mil metros cúbicos de água turva, misturada a rejeitos de minério. Esse incidente causou o alagamento das instalações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em Ouro Preto, colocando cerca de 200 trabalhadores em risco e provocando danos materiais significativos.
Na sequência, a lama contaminada percorreu o rio Goiabeiras, que atravessa a área urbana de Congonhas, antes de se encontrar com o Rio Maranhão. Um segundo vazamento em menos de 24 horas ocorreu na mina de Viga, onde um tanque secundário apresentou extravasamento, contribuindo para a poluição do mesmo Rio Maranhão, que também é afluente do Paraopeba, o mesmo rio que sofreu severas consequências após a tragédia de Brumadinho em 2019.
Justiça e Resiliência: O Caminho a Seguir
O rompimento da barragem em Brumadinho não apenas resultou em perda de vidas, mas também provocou danos ambientais que perduram. Estudos da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) indicam que o Rio Paraopeba ainda apresenta contaminação por metais pesados acima dos limites seguros. O cenário é desolador: muitos dos rejeitos permanecem contaminando o ambiente, tornando a água imprópria para vários usos e comprometendo a segurança alimentar e modos de vida das comunidades locais.
A pesquisa da UFMG revelou que mais de 70% dos lares em Brumadinho enfrentam problemas de saúde mental, incluindo ansiedade e depressão, em decorrência dos traumas associados à tragédia. Segundo Luiz Paulo Siqueira, biólogo do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), esse quadro reflete um ambiente de total impunidade e um modelo de mineração que prioriza o lucro em detrimento da segurança e do bem-estar das comunidades.
O desfecho do caso Brumadinho está programado para ganhar novos capítulos. Audiências de instrução estão agendadas para iniciar no dia 23 de fevereiro, na 2ª Vara Federal Criminal de Belo Horizonte, onde testemunhas, vítimas e réus serão ouvidos até maio de 2027. A juíza Raquel Vasconcelos Alves de Lima poderá, ao final desse prazo, decidir pela realização de um julgamento em júri popular, responsabilizando criminalmente até 15 pessoas, incluindo ex-diretores da Vale e representantes da empresa TÜV SÜD, que atestou a segurança da barragem que se rompeu.
