Movimento Global de Investimentos
No recente cenário econômico, o Brasil tem atraído a atenção de investidores estrangeiros, impulsionado pelo movimento de rotação financeira global. Raphael Figueredo, estrategista da XP, observa que o aumento da entrada de recursos estrangeiros é um reflexo de uma tendência preexistente, embora a intensidade do fluxo tenha surpreendido muitos. Parte desse fenômeno pode ser atribuída à crescente incerteza em relação às políticas econômicas nos Estados Unidos, especialmente sob a administração de Donald Trump. Segundo Figueredo, “o mundo começa a questionar a institucionalidade dos EUA, resultando em uma redução da alocação de investimentos lá, em busca de mercados mais promissores, que ofereçam taxas de juros mais atrativas”.
Além disso, o cenário global indica que os mercados emergentes, em especial o Brasil, são vistos como destinos estratégicos para recursos devido ao seu impacto significativo no setor de commodities, que inclui alimentos e minérios. Com cerca de 30% do Ibovespa vinculado a esses produtos, o país se destaca como um dos principais na América Latina.
Fatores Internos ou Externos?
Marcelo Freller, estrategista de produtos de investimento no C6 Bank, ressalta que o movimento de investimento é mais influenciado por fatores globais do que por questões locais. “Estamos vendo um fluxo de capital que é amplamente global. Países como México e Chile apresentam tendências semelhantes, tornando improvável atribuir esse movimento a fatores internos, sejam eles políticos ou econômicos.”
Ele também destaca que, até o momento, não houve mudanças significativas no ambiente político brasileiro que justificassem a alta acentuada da Bolsa. “No âmbito político, não registramos novidades relevantes neste início de ano. Além disso, as variações nas taxas de juros e o desempenho das commodities não apresentaram alterações expressivas que tornassem o mercado brasileiro de repente mais atrativo. As commodities que mais se valorizaram, como ouro e prata, não são prioritárias para o Brasil”, analisa Freller.
Ações com Potencial de Crescimento
Freller acrescenta que o fluxo atual de investimentos se desenrola após um longo período de concentração de capital nos ativos americanos. “Durante 15 anos, os ativos dos EUA dominaram e drenaram liquidez do restante do mundo. Nos últimos 13 meses, já observamos uma reversão gradual, com a saída de recursos em busca de novas oportunidades em outros mercados”, explica.
Figueredo, por sua vez, acredita que, apesar das altas recentes, as ações brasileiras ainda são consideradas “mais baratas” em comparação a outras economias emergentes, especialmente quando se levam em conta os sólidos resultados das empresas listadas na B3. “O mercado brasileiro ainda apresenta um desconto em relação a outros emergentes, e temos empresas que mostram balanços robustos, com perspectivas otimistas para o próximo trimestre”, afirma.
Expectativas Políticas e Econômicas
Ainda assim, o cenário político brasileiro, em um ano eleitoral, pode gerar ruídos temporários que afetem a percepção dos investidores. No entanto, até o momento, os investidores parecem estar dispostos a assumir esses riscos ao alocar seus recursos em mercados emergentes. “O debate sobre a desvalorização do dólar é favorável para o Brasil. Observamos uma situação semelhante durante o auge das commodities entre 2002 e 2008 e agora estamos vendo um padrão semelhante”, destaca Figueredo.
Tania Grofredo, economista-chefe da GEP Brasil, também observa que o fluxo de investimentos está relacionado ao cenário internacional, somado à expectativa de cortes nas taxas de juros nas principais economias. “Com a possibilidade de redução das taxas, o apetite por risco aumenta, assim como a busca por mercados que ainda oferecem retornos elevados”, afirma Grofredo.
Ela ressalta que o diferencial da taxa de juros brasileira, ainda elevado com a Selic em 15% ao ano, aliado à significativa exposição do Brasil a commodities, é um fator que explica a atual atratividade do país para os investidores. “O Brasil se destaca naturalmente por combinar juros altos, grandes empresas e liquidez, além de sua relevância na região”, analisa.
O Futuro do Mercado
Apesar das incertezas geopolíticas e da recente desvalorização do dólar, Freller acredita que os ativos americanos continuarão a desempenhar um papel importante no longo prazo. “Os EUA ainda são predominantes, mas com suas Bolsas sobrevalorizadas, juros em queda e um ambiente político mais volátil, é lógico que investidores busquem alternativas que estiveram em segundo plano por algum tempo”, finaliza.
Ele observa que esse processo de diversificação deverá ocorrer de maneira gradual, sem rupturas significativas. “Ainda há uma quantidade considerável de capital alocada em ativos americanos, tanto de investidores individuais quanto de instituições. Esse movimento deve continuar, mas sem grandes mudanças drásticas de parâmetros”, conclui.
