O Retorno à Era do Single
Como artista, vivi a era de ouro do CD, e como economista, analiso as flutuações dos mercados. Agora, como analista de sistemas que adora métricas, percebo um intrigante déjà vu. Ao observar o Spotify e o TikTok em 2026, não vislumbro um futuro inovador, mas uma curiosa viagem de volta a 1955.
Estamos testemunhando o fechamento de um ciclo de 70 anos. A indústria musical, impulsionada pela tecnologia de streaming, aboliu a “Era do Álbum” e nos devolveu à “Era do Single”. A semelhança entre o lançamento de uma música atualmente e a dinâmica dos anos 1950 é impressionante, e para entender essa transição, é vital explorar alguns detalhes sobre o mundo musical.
O Impacto do Formato Físico na Consumo Musical
Nos anos 1950, o formato físico predominava no consumo de músicas. O vinil de 7 polegadas, conhecido como “compacto” ou 45 RPM, era acessível, portátil e comportava apenas uma faixa de cada lado. Os artistas gravavam suas canções e rapidamente as enviavam para as rádios. Se o locutor aprovasse, a música era tocada. Se o público gostasse, eram feitas novas prensagens. O “long play” (LP) era visto como um luxo, reservado para gêneros como jazz e música clássica. O pop e o rock, por sua vez, surgiram de forma rápida e direta.
A partir da década de 1960, a indústria musical percebeu uma oportunidade econômica: por que vender uma música por um preço abaixo, se era possível obrigar o consumidor a levar 12 faixas a um custo elevado? Assim nasceu a cultura do álbum. Durante anos, fomos condicionados a consumir o pacote completo, mesmo que o desejo fosse ouvir apenas uma faixa específica. Esse modelo de negócios se mostrou extremamente eficaz e durou várias décadas.
A Revolução do Streaming e a Nova Economia da Atenção
Entretanto, o streaming promoveu uma mudança radical na forma como consumimos música. Hoje, ao dar o play, o ouvinte, assim como o jovem de 1955 com sua vitrola, não tem paciência para o “lado B”. A necessidade atual é consumir o hit rapidamente. A diferença é que a limitação contemporânea não é o formato físico, mas a atenção do usuário.
Como analista de sistemas, observo que a arquitetura dos softwares moldou a forma de compor músicas. A estratégia atual, chamada de “estratégia cascata”, propõe que ao invés de lançar um álbum com 12 faixas de uma só vez, o artista libera uma música por mês. Isso mantém a relevância do artista e alimenta a incessante máquina do consumo digital. É como se estivéssemos retornando ao compacto mensal, mas agora em formato digital.
As Mudanças na Estrutura Musical
Essa nova abordagem musical traz profundos impactos. Você se lembra das longas introduções de 40 segundos de piano ou guitarra típicas dos anos 1970? Elas estão em extinção. No atual cenário da economia da atenção, se uma música não captar a atenção do ouvinte em cinco segundos, ela é imediatamente pulada. A estrutura de uma música agora precisa ser direta e impactante, com o refrão precisando aparecer bem no início da faixa. O modelo voltou a ser similar ao de “Tutti frutti”, de Little Richard: uma abordagem direta e sem excessos.
O Algoritmo como Novo DJ da Indústria Musical
O programador de rádio, que outrora decidia o que o público ouviria, agora se chama algoritmo. O algoritmo de recomendação tornou-se o novo DJ, mas com uma abordagem fria: ele não julga a qualidade, mas sim a retenção. Caso uma música seja pulada com frequência, corre o risco de ser esquecida.
Para nós, músicos, o desafio é navegar nesse novo mar revolto. A arte, no fim das contas, sempre encontra seu caminho. É irônico pensar que, após tantas inovações tecnológicas, a estratégia mais contemporânea de lançamento musical é essencialmente a mesma que Elvis Presley utilizava ao entrar na Sun Records com seu violão. Recentemente, tive a oportunidade de visitar esse estúdio icônico. O meio pode ter mudado, mas a urgência de conectar uma canção ao coração de alguém, o mais rápido possível, permanece inalterada.
