Minas Gerais em Foco: Alta nas Estatísticas de Violência Política
No último trimestre de 2025, Minas Gerais ocupou a liderança no ranking nacional de registros de violência política, com 23 casos registrados entre outubro e dezembro. Isso representa 17% do total de incidentes no Brasil, de acordo com o mais recente boletim do Observatório da Violência Política e Eleitoral (OVPE), vinculado à Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). Durante esse período, o estado se destacou entre as diversas unidades federativas do país.
Ao comparar com outras regiões, os dados mostram que o Ceará ficou em segundo lugar com 15 casos (11,1%), seguido pelo Rio Grande do Sul, que registrou 11 (8,1%), e Mato Grosso do Sul, com 10 ocorrências (7,4%). Este levantamento também destacou um crescimento alarmante de 48,3% no número de incidentes de violência política em todo o Brasil em relação ao trimestre anterior, sinalizando uma escalada preocupante no final do ano passado.
Casos de Violência Psicológica em Alta
A liderança de Minas no ranking é, em grande parte, impulsionada pelos casos de violência psicológica. Dentre as 23 ocorrências, 16 se enquadram nessa categoria, demonstrando que o estado concentra 25,4% de todos os casos de violência psicológica registrados no Brasil neste trimestre. Além disso, foram contabilizadas quatro ocorrências de violência física e três de violência semiótica no mesmo período.
Um dos episódios mais emblemáticos ocorreu em dezembro, em Alfenas, no Sul de Minas, onde vereadores da Câmara Municipal receberam e-mails coordenados com ameaças de morte e conteúdos de ódio, incluindo mensagens racistas. Miguel Carnevale, coordenador do Observatório, destacou que esse tipo de ataque já foi identificado anteriormente em Minas e pelo Brasil afora. “As ameaças digitais foram simultâneas e com conteúdo uniforme de racismo e ódio político, o que indica a presença de um padrão de violência”, explicou.
Carnevale acrescentou que, mesmo que os ataques nem sempre resultem em agressões físicas, eles revelam uma estratégia organizada de ataque a lideranças. “Isso mostra um movimento articulado, com foco em atacá-las, mesmo que as ameaças não se concretizem em atos violentos”, avaliou.
Foco na Esfera Municipal
O relatório do OVPE também aponta que a esfera municipal continua sendo a principal vítima da violência política no Brasil. Vereadores e prefeitos são os mais atingidos, e em Minas essa situação é ainda mais acentuada. “Historicamente, nossas observações mostram que as lideranças municipais são as mais vulneráveis a esse tipo de violência”, afirmou Carnevale.
Em nível nacional, cerca de 60% das vítimas de violência política são de lideranças municipais, enquanto em Minas esse número salta para 75%, evidenciando uma prevalência mais acentuada de ataques a esse grupo. No contexto nacional, o Partido Liberal (PL) foi o mais afetado, com 19 registros de vítimas (14,1%), seguido pelo PT e pelo PP, ambos com 18 casos (13,3%).
Transição Política e Aumento de Casos
Embora o último trimestre de 2025 não tenha coincidido com campanhas eleitorais, a elevação nos casos de violência política ocorre em um momento de transição para um novo ciclo político. Para Carnevale, essa situação exige cautela na análise dos dados, mesmo que o aumento seja notório. “Esse período marca a transição de um ano não eleitoral para um eleitoral. É complicado afirmar que o crescimento nos episódios esteja diretamente ligado às proximidades das eleições”, ponderou. Contudo, ele ressaltou que o aumento no período de transição demanda atenção especial.
O coordenador enfatiza que os meses que se seguem serão cruciais para entender como a violência política se comportará ao longo de 2026. “É notável que este trimestre tenha registrado um aumento significativo no número de casos, precisamente em um momento de transição política”, concluiu ele. “Agora, precisamos monitorar o início de 2026 para ver como a situação evolui, especialmente com a proximidade das campanhas eleitorais, que costumam ser os períodos mais intensos em termos de violência.”
Metodologia de Pesquisa
A coleta de dados para esta pesquisa é realizada por meio de um monitoramento contínuo da mídia, com alertas do Google configurados por palavras-chave específicas sobre violência política. As informações são então validadas pela equipe de pesquisadores para eliminar casos de morte natural, acidental ou com causas desconhecidas. A metodologia considera violência política como qualquer forma de agressão que visa interferir na ação das lideranças, silenciar vozes ou eliminar oponentes do processo eleitoral.
