Como o diagnóstico de demência pode revelar conexões profundas entre mãe e filha
O Relatório Nacional sobre Demência, publicado em 2024, estima que aproximadamente 1,8 milhão de brasileiros convivem com a doença. Este número, alarmante, pode triplicar até 2050, resultado do envelhecimento da população. Comumente, o diagnóstico de demência é associado apenas aos desafios trazidos pela condição, mas essa visão ignora a possibilidade de continuidade da vida, do afeto e de novos significados após a confirmação da doença.
Essa nova perspectiva é defendida por Claudia Alves, gerontóloga e pedagoga, que passou 12 anos ao lado de sua mãe, Francisquinha, diagnosticada com Alzheimer. Antes do início da doença, a relação entre mãe e filha não era marcada por uma grande proximidade emocional. Contudo, a rotina de cuidados diários que se impôs transformou-se em uma jornada de redescoberta, repleta de amor e afeto.
No livro “O bom do Alzheimer – Como a doença da minha mãe foi a nossa cura”, lançado pela Editora Sextante, Claudia narra os altos e baixos da experiência de cuidar de um ente querido, ao mesmo tempo em que é necessário aprender a cuidar de si mesmo. Em capítulos que se assemelham a conversas acolhedoras, a autora compartilha sua trajetória e a de sua mãe, mostrando que a história delas não termina com o surgimento dos sinais da demência, mas sim se transforma gradualmente desde 2010.
Com o cotidiano repleto de desafios, como organizar a casa, buscar apoio emocional e lidar com a sobrecarga invisível que muitas filhas e esposas enfrentam, Claudia reflete sobre limites, vínculos familiares e a importância de cultivar a leveza em meio ao convívio com a doença. A autora, que também é conhecida por seu perfil no Instagram (@obomdoalzheimer), usa o humor como uma ferramenta poderosa para lidar com os desafios apresentados pela condição.
Além de relatos pessoais, o livro aborda temas relevantes como a Diretiva Antecipada de Vontade (Testamento Vital), um documento que permite que uma pessoa expresse suas preferências sobre cuidados em caso de doenças ou incapacidades. Claudia também discute a formação de redes de apoio e a importância de educar as futuras gerações para que saibam cuidar de seus familiares no futuro.
“Honestamente, não faz diferença se ela sabe ou não que sou sua filha, porque ser filha é muito mais do que ouvir a palavra ‘filha’. Eu me sinto sua filha nos momentos em que ela me olha com um olhar amoroso de mãe, com uma profundidade que revela o amor que nos une”, reflete Claudia, destacando a essência do que significa cuidar e ser cuidado.
