Por que as empresas estão se mudando para o interior?
Quando formou-se em engenharia de produção pela Universidade Federal de Viçosa (UFV), Letícia Lemos Martins não imaginava que retornaria a Passos, sua cidade natal com cerca de 112 mil habitantes, segundo o último Censo. “Jamais pensei em voltar para Passos, sonhava em trabalhar em um grande centro urbano, mas o desejo de estar perto da família sempre existiu”, relata Letícia, de 26 anos.
Contudo, sua trajetória mudou ao saber que a Heineken inauguraria uma nova fábrica em Passos. Com um investimento de R$ 2,5 bilhões, a cervejaria criou mais de 2,2 mil empregos durante a construção e atualmente emprega 350 pessoas. “Trabalhar em uma multinacional era meu objetivo, e quando surgiu essa oportunidade, não hesitei em aproveitar”, afirma.
A decisão de Letícia de voltar para casa representa uma tendência crescente na indústria brasileira: a interiorização. Em 1985, dois terços dos postos de trabalho industriais estavam concentrados em capitais e regiões metropolitanas. Por outro lado, em 2022, 54,4% dos empregos da indústria já estavam localizados no interior, conforme dados do governo federal.
Essa mudança de cenário começou em 2014, quando o interior passou a concentrar a maior parte dos empregos industriais do país e essa tendência tem se fortalecido ano a ano. Um estudo recente do Núcleo de Economia Regional e Urbana da Universidade de São Paulo (Nereus/USP) revelou que estados como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais apresentaram os movimentos mais significativos de interiorização nas últimas quatro décadas.
Os economistas Paulo Morceiro e Milene Tessarin, responsáveis pela pesquisa, utilizaram dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) para traçar um panorama da evolução do emprego industrial no Brasil. Os resultados indicam que, enquanto o Centro-Oeste viu sua participação na produção industrial aumentar, três regiões metropolitanas tradicionais, como São Paulo e Rio de Janeiro, foram responsáveis por 70% da desindustrialização no país nas últimas décadas.
Desindustrialização e seus efeitos
Entre 1986 e 2022, a participação da indústria de transformação — que converte matérias-primas em produtos — no total de empregos do Brasil caiu de 27,7% para 15,1%. Essa desindustrialização ocorreu em duas fases: a primeira, de 1986 a 1998, foi marcada por uma intensa eliminação de postos de trabalho e a segunda, menos severa, ocorreu entre 2008 e 2022.
Os fatores que impulsionaram essa transição são diversos. Morceiro e Tessarin apontam a redução de investimentos públicos, a hiperinflação e a abertura comercial dos anos 1990 como elementos que fragilizaram a indústria nacional. Isso resultou em uma perda de 1,67 milhão de empregos no setor entre 1989 e 1998.
A fase mais recente de desindustrialização, iniciada com a crise financeira mundial em 2008, foi acentuada pela concorrência com a China, somada à recessão econômica de 2015 e 2016. Embora o interior também tenha enfrentado a desindustrialização, este processo foi menos intenso comparado às regiões metropolitanas, especialmente em São Paulo.
Fatores que impulsionam a interiorização
A interiorização da indústria pode ser explicada, em parte, pela superlotação e pelos custos elevados das áreas urbanas. Morceiro destaca que essa situação tem levado empresas a buscar regiões menos concorridas, onde os custos operacionais são mais baixos. “Com terrenos e aluguéis cada vez mais caros nas capitais, empresas estão se mudando para o interior, onde a estrutura é mais acessível”, explica.
Um exemplo recente dessa mudança é a montadora chinesa GWM, que inaugurou em agosto uma nova fábrica em Iracemápolis, a 160 km de São Paulo. Com investimentos de R$ 10 bilhões até 2032, a empresa pretende criar de 800 a mil empregos. Gabriele de Oliveira Pereira, uma das funcionárias da nova planta, trocou seu trabalho em um supermercado por uma vaga na indústria automotiva e viu seu salário dobrar.
A “guerra fiscal” também tem contribuído para a interiorização, com estados oferecendo isenções fiscais para atrair indústrias. Em Passos, a Heineken recebeu uma isenção de R$ 90 milhões em tributos durante 15 anos, enquanto a GWM também obteve incentivos fiscais significativos. Contudo, Morceiro alerta que essa interiorização não é suficiente para estancar a desindustrialização no Brasil. Enquanto alguns estados se industrializam, outros, como São Paulo e Rio de Janeiro, continuam a perder participação no total de empregos.
A importância da indústria no crescimento econômico
De acordo com Morceiro, a desindustrialização é preocupante, pois a indústria desempenha um papel crucial no crescimento econômico. Ela gera empregos e cria cadeias produtivas duradouras. Assim, a modernização e o fortalecimento do setor industrial são essenciais para o futuro do Brasil, que precisa encontrar um equilíbrio entre a preservação de empregos e a atração de novas indústrias.
Gabriele, funcionária da GWM, reflete sobre a importância de fortalecer a indústria: “Muita gente sonha em trabalhar aqui, mas as oportunidades são limitadas. Um emprego como esse muda vidas”.
