Entenda como o crescimento do PIB per capita de Brasil e Argentina revela desafios similares
Quando pensamos na trajetória econômica da Argentina, uma palavra que frequentemente surge é “fracasso”. Essa reflexão merece atenção especial, especialmente ao considerarmos os dados que envolvem o crescimento econômico do Brasil nos últimos 35 anos. Se analisarmos as projeções para 2025, podemos antecipar um crescimento do PIB de 4% para a Argentina e 2,3% para o Brasil. A grande questão é: qual será o crescimento do PIB per capita em ambos os países entre 1990 e 2025? Para nossa surpresa, ambos os países devem registrar 1,3% ao ano. Esse número, por si só, é emblemático.
Ainda que o Brasil tenha deixado para trás sérios problemas, como a alta inflação — que foi controlada em 1994 — e a questão da dívida externa, que se tornou um fardo para a Argentina ao longo de cinco décadas, quando olhamos para a melhoria do bem-estar econômico, a realidade é que avançamos lentamente. A situação dos nossos vizinhos oferece uma perspectiva perplexa sobre como a mediocridade econômica pode ser uma característica compartilhada.
É importante, no entanto, reconhecer que, apesar das comparações, o Brasil fez progressos significativos em diversas áreas. Entretanto, em termos de bem-estar material, o avanço tem sido lento, muito semelhante ao que se observou na Argentina. Um ponto a ser destacado são os períodos de crescimento acelerado da renda per capita argentina, que ocorreram em dois intervalos: entre 1990 e 1998, onde o crescimento foi de 4,3% ao ano, e entre 2002 e 2011, com um impressionante 5,2% ao ano. Esses períodos se destacam em meio a crises que, por outro lado, foram muito mais severas do que as enfrentadas pelo Brasil.
O foco desta análise não é minimizar os problemas enfrentados pela Argentina, mas sim proporcionar ao leitor uma visão mais realista da situação do Brasil. Ao longo das últimas três décadas e meia, nosso desempenho econômico não foi muito diferente do de nossos vizinhos, que são frequentemente citados como exemplos de fracasso. Periodicamente, tivemos fases melhores: os anos do governo FHC, por exemplo, merecem uma reavaliação mais positiva, assim como os avanços sociais promovidos nos mandatos de Lula. Contudo, se olharmos para o longo prazo, é evidente que, apesar de algumas vitórias, os avanços foram escassos.
Para entender melhor essa estagnação, quatro fatores devem ser abordados: primeiro, a despesa pública primária do governo federal aumentou de 11% do PIB em 1991 para 19% atualmente; segundo, o desempenho da produtividade no Brasil nesse período foi insatisfatório, com um crescimento médio de apenas 0,7% ao ano. Terceiro, o panorama educacional do país apresentou deficiências significativas em comparação com as nações que se destacam globalmente. Por último, enfrentamos um sistema político muito complexo, caracterizado pela falta de colaboração entre Executivo e Legislativo, resultando em leis frequentemente mal elaboradas e um alto nível de litigiosidade.
Essas questões contribuem para o cenário de estagnação e demonstram que, para avançarmos, será necessário encarar esses desafios de frente. A comparação com a Argentina, longe de ser um simples exercício retórico, deve nos instigar a buscar soluções eficazes para os problemas que persistem em nossa economia.
