Movimentação de Ações na Viking Participações
Dois meses antes de sua prisão, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro decidiu vender 55% da Viking Participações, uma de suas principais empresas, para um fundo de investimentos gerido pela Reag. Com essa transação, ele renunciou ao cargo de administrador, que foi assumido por Adriano Garzon Correa, um ex-despachante de Nova Lima (MG). A Viking, popularmente conhecida por ser a proprietária de três aeronaves de Vorcaro, entre elas um jato Falcon 7X avaliado em cerca de R$ 200 milhões, teve sua venda oficializada na Junta Comercial de Minas Gerais (Jucemg) no dia 17 de setembro de 2025, em meio a uma crise enfrentada pelo banco de Vorcaro.
No início daquele mês, o Banco Central já havia recusado a aquisição do Master pelo Banco de Brasília (BRB), e semanas depois, surgiu a informação de que a Polícia Federal iniciara um inquérito sobre o banco. O documento registrado mostra que Vorcaro transferiu a maior parte do capital social da Viking para o Stern Fundo de Investimento em Participações Multiestratégia.
A alteração contratual, que formalizou a venda de 55% da Viking, também indicou a renúncia de Vorcaro ao cargo de administrador. O novo responsável, Garzon Correa, possui um histórico de associação a empresas que foram encerradas, incluindo uma firma de despachante. Entramos em contato com Garzon, mas não obtivemos resposta. A assessoria de imprensa de Vorcaro, por sua vez, divulgou uma nota esclarecendo que ele ainda é o controlador da Viking, ressaltando que a venda ocorreu em 2024 e que em 2025 apenas formalidades burocráticas continuaram.
A nota completa afirma: “A defesa de Daniel Vorcaro esclarece que a venda de parte da Viking foi realizada ainda em 2024. Ao longo de 2025 ocorreram apenas atos burocráticos e formalizações societárias inerentes à operação. Daniel Vorcaro permanece acionista e controlador da Viking. A operação seguiu critérios comerciais regulares. Vorcaro segue colaborando com as autoridades”.
Investigações e Histórico da Viking
A Reag, administradora do fundo Stern, também foi procurada, mas não se manifestou. Esse fundo está sob investigação por suposta participação em fraudes relacionadas ao Master, além de ser um dos focos da Operação Carbono Oculto, desencadeada pela Polícia Federal em agosto de 2025. Essa operação visa apurar a relação do Primeiro Comando da Capital (PCC) com negócios na economia formal, incluindo o mercado financeiro.
Fundada em 2006, a Viking é uma das companhias mais antigas de Vorcaro e é citada em um processo na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que investiga irregularidades em um fundo de investimento imobiliário fechado, o Brazil Realty. Nesse processo, Vorcaro é mencionado como responsável pelo Banco Máxima, nome anterior do Master, que adquiriu cotas do fundo, além de seu pai, Henrique, que também foi envolvido, como responsável pela Milo, outra empresa que investiu no Brazil Realty.
A sede da Viking está localizada na Avenida Raja Gabaglia, em Belo Horizonte, em um prédio que abriga também a Vinc, empresa de Vorcaro, e a FSW, cujos sócios incluem a Belvitur e Moriah, companhia ligada ao pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. Zettel foi um dos alvos da Operação Compliance Zero da PF, e seu nome foi associado a uma tentativa frustrada de viajar para Dubai, onde foi detido, mas liberado poucas horas depois.
Além disso, a Viking esteve envolvida em transações imobiliárias que atraíram a atenção da mídia por conta do escândalo do Master, como a doação de um apartamento avaliado em R$ 4,4 milhões para uma mulher que se identificou como sugar baby. Este imóvel, doado pela Super Empreendimentos e Participações SA, ligada ao pastor Zettel, foi adquirido da Viking apenas nove meses antes.
Implicações da Transação e Situação do Stern
Até o momento, não é possível determinar publicamente o valor da venda do controle da Viking ao fundo Stern. As informações disponíveis sobre o fundo na CVM apresentam lacunas. Criado em agosto de 2024, o Stern tinha um patrimônio líquido de aproximadamente R$ 36 mil em setembro daquele ano, mas a situação financeira deteriorou, chegando a ficar negativa em R$ 1,9 bilhão em março de 2025. Os dados mais recentes, que cobrem o período de setembro a dezembro de 2025, indicam uma recuperação, com o patrimônio líquido do fundo atingindo R$ 1,3 bilhão.
O professor Carlos Portugal Gouvêa, especialista em Direito Comercial da USP, afirma que a aquisição feita pelo fundo é regular, mas destaca a importância da transparência nas informações: “Fundos de investimento em participações multiestratégia têm a capacidade de adquirir diferentes tipos de participações e valores mobiliários, o que é uma prática normal e aceita pela CVM. O essencial é que essas aquisições sejam corretamente refletidas nas demonstrações financeiras do fundo e que as informações sejam apresentadas à CVM de maneira regular”.
