Retorno de Investimentos em Arte Brasileira
Uma pesquisa recente apresentou dados preocupantes sobre o retorno de investimentos em pinturas de artistas brasileiros, revelando que, entre 2012 e 2022, esse setor rendeu menos do que aplicações na Bolsa de Valores ou no CDI (Certificado de Depósito Interbancário), além de não conseguir superar a inflação. O estudo foi discutido durante o Congresso da Anpec (Associação Nacional dos Centros de Pós-Graduação em Economia) em dezembro de 2025.
Os responsáveis pelo levantamento foram Thais Mesquita, da Ence (Escola Nacional de Ciências Estatísticas), e Luiz Andrés Paixão, servidor do IBGE. Vale destacar que a pesquisa não está vinculada ao instituto e faz parte de um trabalho acadêmico realizado na Ence.
Paixão é um especialista em análise de preços hedônicos, um modelo que avalia qual peso cada característica de um bem tem no seu valor de mercado. Esse modelo é comum na avaliação de imóveis, onde fatores como localização, tamanho e número de quartos influenciam o preço final.
No caso das obras de arte, as variáveis que impactam o valor incluem a técnica utilizada pelo artista, a dimensão da tela, a autenticidade da obra, a fama do pintor (se está vivo ou já falecido), além da idade da obra — obras mais antigas tendem a ser mais valiosas.
Através de uma regressão econométrica, os pesquisadores puderam avaliar o impacto de cada uma dessas características no preço das pinturas. Com isso, foram definidos coeficientes que ajudam a calcular a taxa interna de retorno do investimento.
O estudo utilizou dados da Bolsa de Arte, uma casa de leilões, analisando obras transacionadas entre 2012 e 2022. Inicialmente, 2.215 obras foram identificadas, mas a amostra foi ajustada, excluindo artistas com menos de 20 obras vendidas ou cuja soma não atingiu R$ 2 milhões, resultando em 1.073 observações.
A pesquisa indicou que a valorização média anual das pinturas no Brasil durante o período foi de 5,5%, inferior aos 6,5% do Ibovespa e aos 7% da taxa CDI. A inflação média anual, conforme o IPCA, foi de 6% no mesmo intervalo.
Os autores da pesquisa enfatizam que não foi considerado o retorno de bem-estar que a posse de uma obra de arte pode proporcionar.
Em entrevista, Paixão ressalta que esses dados representam uma média ao longo do período analisado. Um desafio na precificação das obras é a presença de ‘outliers’ — obras que ultrapassam significativamente os valores médios e podem distorcer os resultados. Para evitar isso, os pesquisadores preferiram calcular as medianas, que não são afetadas por valores extremos, oferecendo uma análise mais equilibrada.
Os resultados encontrados estão em consonância com estudos anteriores na área. O pesquisador menciona a pesquisa clássica de William Baumol, que, em seu artigo de 1986, intitulado ‘Unnatural Value: Or Art Investment as Floating Crap Game’, argumentava que os preços das obras de arte tendem a flutuar de forma errática, levando a uma taxa de retorno real próxima de zero.
A Valorização dos Artistas Brasileiros
Luiz Paixão, ao abordar a valorização das obras de arte, brinca que, ao falar sobre imóveis, o fator principal é ‘localização, localização, localização’. No entanto, no que tange às obras de arte, ele comenta que o essencial é ‘o artista, o artista, o artista’. A análise do peso relativo de cada característica na composição dos preços das pinturas permite também estimar a influência do artista no valor final.
Com base na pesquisa, foi criado um índice específico para artistas brasileiros. É importante destacar que artistas amplamente reconhecidos no mercado internacional, como Tarsila do Amaral e Lygia Clark, não foram incluídos nesse índice, devido ao número limitado de obras transacionadas no Brasil. Isso não diminui o valor dessas artistas, cuja demanda no exterior é robusta.
Fora esses nomes, Raymundo Colares se destacou como o artista com o maior índice de valorização em território nacional, com suas obras valendo até 30 vezes mais do que as que menos se valorizam. Nascido em Montes Claros, Minas Gerais, ele estudou na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro.
Ligia Canongia, curadora, destaca que Colares foi fundamental na formação da arte contemporânea brasileira, com obras que refletem uma nova linguagem plástica no país, influenciada tanto pelas vanguardas construtivas quanto pela pop art internacional. Nas décadas de 1960 e 1970, seu trabalho mesclava formas geométricas e iconografia urbana, representando questões de movimento e velocidade de maneira inovadora.
Infelizmente, Colares faleceu em 1986, em um incêndio que ocorreu quando ele tinha apenas 42 anos, deixando um legado significativo para a arte brasileira.
