A Influência de Dona Beja nas Mudanças Territoriais
A recente estreia da novela ‘Dona Beja‘ na plataforma HBO Max voltou a despertar o interesse do público por uma das figuras históricas mais emblemáticas de Araxá, em Minas Gerais. Com a atuação de Grazi Massafera como protagonista, a série revive a história de uma mulher que, ao longo do tempo, foi vista como um ícone de escândalo, liberdade e transgressão. No entanto, sob essa imagem mítica, existem diversas camadas históricas que merecem ser exploradas — dentre elas, a possível contribuição de Dona Beja para um evento decisivo na formação territorial de Minas Gerais: a anexação do Triângulo Mineiro, em 1816. Vamos entender melhor essa relação.
Em uma entrevista exclusiva ao Aventuras na História, o jornalista e pesquisador Pedro Divino Rosa, conhecido como Pedro Popó, natural de Araxá e autor de uma biografia sobre Dona Beja, lançada na década de 90, ressalta as diferenças entre a abordagem da novela e a pesquisa que desenvolveu. Segundo ele, a obra que inspirou a adaptação televisiva adota uma visão mais mitológica da personagem, enquanto sua pesquisa se fundamentou em documentos históricos e nas narrativas de descendentes de Dona Beja, como netas e bisnetas.
O Papel de Dona Beja nas Disputas Territoriais
Embora Dona Beja não seja o foco central da história de Minas Gerais, sua trajetória se conecta com um quadro mais amplo de disputas políticas e territoriais que caracterizaram a consolidação do estado. Desde o início do século 18, as minas de ouro da região assumiram um papel crucial para a Coroa portuguesa. A descoberta desse metal precioso quebrou a estagnação econômica da colônia, gerando intensos conflitos sociais e políticos, como a Revolta de Vila Rica, em 1720, e posteriormente, a Inconfidência Mineira.
Esses eventos mostram que o território mineiro esteve longe de ser um espaço de paz e conciliação. Rebeliões, disputas administrativas e mudanças de fronteiras foram frequentes, acompanhando a expansão da mineração e da agropecuária. Com o declínio da produção de ouro, novas alternativas econômicas surgiram, e a busca por terras férteis e rotas comerciais motivou Minas Gerais a reivindicar áreas vizinhas.
Foi nesse contexto que ocorreu a anexação do Triângulo Mineiro, região que até então pertencia à Província de Goiás. Essa incorporação, oficializada em 1816, atendeu a interesses econômicos e logísticos, fortalecendo a presença mineira em uma área estratégica para a circulação de mercadorias e a criação de gado.
Dona Beja e seu Papel Indireto no Processo
Pedro Popó aponta que, apesar de sua atuação não ser oficialmente documentada, Dona Beja teria exercido uma influência significativa no processo de anexação. Inicialmente, ao dar início a suas investigações, o pesquisador não acreditava que a personagem tivesse qualquer envolvimento político, mas sua perspectiva mudou conforme as pesquisas avançavam. “Quando comecei a pesquisar sobre Dona Beja, acreditava que ela não teve nenhuma intervenção política nesse fato histórico que levou à desanexação e à anexação do Triângulo Mineiro”, relata.
No entanto, com o tempo, Popó reconheceu que Dona Beja, de fato, teve um papel. Essa influência, conforme explica, não se deu de maneira formal, mas através de relacionamentos pessoais, que eram comuns em uma época em que o exercício do poder envolvia vínculos informais. Ela mantinha uma relação próxima com o ouvidor da região, figura chave na administração da justiça e da política local. “Ela tinha influência sobre o ouvidor,” afirma Popó.
Essa proximidade foi aproveitada por políticos mineiros que buscavam a anexação do território, vendo na relação uma oportunidade para reforçar suas reivindicações junto à autoridade local. O pesquisador menciona que, na época, muitos requerimentos foram apresentados ao ouvidor por representantes de Minas Gerais, aproveitando-se do relacionamento dele com Dona Beja.
Embora a decisão final tenha sido do ouvidor, pressionado por interesses econômicos mais amplos, a influência pessoal de Dona Beja teve um peso significativo nesse processo. “É bem provável que o ouvidor tenha atendido aos pedidos dos políticos que o procuravam, sabendo que ele tinha uma boa relação com a Beija,” comenta Popó. Essa atuação revela como o papel político de Dona Beja tende a ser menosprezado ou ignorado, uma vez que sua influência se destacou nos bastidores, em um contexto no qual as mulheres raramente eram reconhecidas como agentes políticas.
Revisitando a História de Minas Gerais
A nova série reabre o debate sobre as múltiplas camadas da personagem e proporciona uma oportunidade de revisitar momentos cruciais da história de Minas Gerais. A anexação do Triângulo Mineiro, em 1816, é apenas um exemplo de um longo processo de disputas territoriais que moldaram o estado e contribuíram para a formação do Brasil como uma unidade política. Ao iluminar essas conexões, a história de Dona Beja deixa de ser apenas um relato de costumes e paixões, integrando-se a um contexto mais amplo: o das transformações econômicas, políticas e territoriais que delinearam os caminhos de Minas Gerais e do Brasil.
