O Espelho da Ópera na Política Atual
Recentemente, assisti à ópera “Um Baile de Máscaras” na Bastille e não pude deixar de traçar paralelos com a política brasileira. A obra de Verdi aborda temas como “destino inescapável”, “traição”, “perdão” e “sacrifício”, culminando em uma mensagem humanista que sugere que, mesmo diante da morte, o perdão e a honra podem prevalecer. No entanto, ao refletir sobre a situação atual do Supremo Tribunal Federal (STF), não posso deixar de mencionar a preocupação de um ministro, que descreveu o ambiente como de “insegurança”. A reunião que visava ser secreta e que resultou na saída do ministro Dias Toffoli da relatoria do caso Master foi gravada, possivelmente pelo próprio Toffoli, o que deixou seus apoiadores em estado de choque e apreensão. Que outras conversas poderiam ter sido capturadas?
Na sequência, o ministro Alexandre de Moraes, utilizando os amplos poderes conferidos pela omissão de seus colegas, decidiu quebrar o sigilo bancário de aproximadamente cem pessoas que têm relações de parentesco até o terceiro grau com os ministros do STF. Sem consultar os demais integrantes do tribunal, Moraes busca esclarecer se dados da Receita Federal sobre sua esposa, uma advogada que firmou um contrato milionário com o Banco Master, e sobre o ex-ministro Toffoli foram obtidos de forma indevida. No entanto, alguns de seus colegas expressam temor por ter informações excessivas a respeito deles e de suas famílias. O ambiente está repleto de insegurança e traições, e “Um Baile de Máscaras”, de Giuseppe Verdi, revela-se surpreendentemente relevante quando analisado à luz da política brasileira contemporânea.
Poder e Conspiração: Temas Universais
Embora a trama da ópera se desenrole em um contexto histórico diferente, as questões de poder, desconfiança e conspiração que ela levanta dialogam diretamente com as tensões que permeiam o Brasil atual. No centro da narrativa está um governante carismático que, mesmo rodeado por lealdades aparentes, vive sob a constante sombra da traição. Esse elemento se reflete na política brasileira, onde as negociações para as eleições deste ano, especialmente a corrida presidencial, estão repletas de alianças instáveis, disputas internas e crises de confiança entre líderes e seus aliados.
A narrativa sobre traições e insegurança se insere perfeitamente no contexto da família Bolsonaro, onde a confiança é limitada apenas aos laços familiares, que também enfrentam desavenças internas. A atuação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro em favor das taxações de Trump no Brasil gerou discussões acaloradas que foram expostas publicamente. Além disso, a rivalidade entre a madrasta Michelle e os enteados, alimentada por ambições políticas, é digna de uma tragédia operística. O caso do Banco Master exemplifica este ambiente ambíguo que também permeia o petismo. O ministro Toffoli, que é uma figura próxima a Lula e ao PT, chegou a trair o ex-presidente quando estava preso, impedindo-o de comparecer ao enterro do irmão.
A Ambiguidade do Poder e suas Consequências
À frente do STF, Toffoli convocou um general do Exército para assessorá-lo e passou a referir-se ao golpe militar de 1964 como um “movimento”. No caso do Banco Master, ele colocou o governo em uma situação delicada ao expor a relação íntima que tinha com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Assim como o duque Ricardo na obra, os políticos governam em um cenário onde amizades podem rapidamente se transformar em rivalidades. No clímax da ópera, ao caírem as máscaras, as identidades ocultas simbolizam a dificuldade de discernir intenções verdadeiras.
A metáfora do baile sugere um espaço em que a aparência pública nem sempre reflete as verdadeiras articulações de poder. A obra de Verdi enfatiza o peso do destino e da inevitabilidade. A profecia que prenuncia a morte do duque Ricardo cria uma atmosfera de fatalismo que se assemelha a certos momentos da política brasileira, onde crises parecem caminhar para desfechos previsíveis, apesar das tentativas de evitá-los. A recente desclassificação da escola de samba Acadêmicos de Niterói, envolta em acusações de abuso do poder econômico e político, é um exemplo claro disso, com a situação sendo analisada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
“Um Baile de Máscaras” permanece relevante não apenas por sua crítica histórica, mas porque expõe que, mesmo com as mudanças ao longo do tempo, a política continua a ser um palco de ambições, lealdades frágeis, encenações públicas e decisões humanas sob pressão — um verdadeiro baile em que nem todos revelam seus rostos.
