A Estratégia dos Ultramercados
Em um mercado onde a concorrência é acirrada, muitos profissionais têm buscado se destacar por meio da super especialização. Karoline Monteiro, por exemplo, é uma advogada que se tornou referência em um nicho específico ao atuar apenas em reclamações trabalhistas de bancários relacionadas a LER/Dort (lesões por esforço repetitivo e distúrbios osteomusculares). “Eu não aceito outras causas. Sou procurada, mas meu trabalho é muito específico”, revela Karoline, fundadora da Monteiro AKL.
De acordo com a advogada, a escolha de um nicho tão específico trouxe resultados financeiros significativos. “Quando analisamos os números, percebemos que essa área é a que mais gera receita para o escritório. Uma ação trabalhista comum pode render cerca de R$ 100 mil, enquanto ações relacionadas a LER podem variar de R$ 400 mil a R$ 1 milhão. A maioria dos nossos clientes são bancários”, explica.
Essa abordagem de focar em um nicho profundo é uma tendência crescente entre pequenos empresários. O gerente de acesso a mercados do Sebrae, Ivan Tonet, comenta que “diferenciar-se de grandes empresas, que não conseguem trabalhar com uma especialização tão extrema, é uma manobra estratégica eficaz para empreendedores. A super especialização exige um conhecimento mais profundo, o que pode ser uma vantagem competitiva no mercado”.
O Contexto das Lesões Relacionadas ao Trabalho
Embora o INSS não divulgue números específicos para LER/Dort, as lesões fazem parte do capítulo XIII da CID, que abrange problemas do sistema osteomuscular. No último ano, essas doenças foram responsáveis pela maior parte dos afastamentos previdenciários, totalizando cerca de 445 mil casos. O Sistema Único de Saúde (SUS) notificou 3,5 milhões de casos entre 2012 e 2024, período em que o Brasil registrou 2,1 milhões de novas ações trabalhistas.
Karoline atualmente possui 30 ações em aberto e projeta encerrar o ano com 50, cobrando honorários de 30%. Um dos processos em andamento conta com um valor de causa de R$ 9 milhões. Vale ressaltar que, em caso de vitória, o pagamento ocorre em uma única parcela, o que adiciona um atrativo a esse tipo de especialização.
Mercado em Alta para Animais Exóticos
O ultranicho não se limita ao setor jurídico. Lucas Porto, um veterinário de Santos, também optou por um mercado específico ao atender apenas animais exóticos. “Quando chegam cães e gatos, eu encaminho para outros profissionais. Minha clínica, a Salvator, foca exclusivamente em animais não convencionais. Embora atenda um volume considerável de pacientes, essa é a minha vocação e empresarialmente, essa decisão tem valido a pena”, conta.
Enquanto uma consulta para um animal tradicional gira em torno de R$ 150, o atendimento para pets exóticos pode variar de R$ 260 a R$ 320. “Os procedimentos são mais delicados e exigem um nível maior de especialização”, acrescenta Lucas. Dados da Abempet indicam que a busca por animais não convencionais cresceu 7,6% em 2024 em comparação com o ano anterior.
A Ascensão das Clínicas Especializadas
Na Clínica Gaia, em São Paulo, a veterinária Ana Victória Rigon reforça essa tendência. “Atendemos um grande número de consultas diárias, especialmente de calopsitas, um mercado que está em franca ascensão. Há uma demanda crescente por especialistas em aves, e planejo lançar um curso de especialização para outros profissionais”, revela Ana. Ela já recebeu até pedidos de consultas internacionais, como de um cliente da Grécia.
Desafios e Oportunidades no Ultramarcado
A falta de profissionais qualificados nessa área é uma dificuldade real, conforme Ana. “Tive dificuldades em encontrar especialistas para realizar exames em aves menores, como canários”, observa. O preço da internação pode chegar a R$ 500 por dia. Essa dinâmica de mercado evidencia a relevância de se posicionar em nichos altamente específicos.
Segundo Surama Jurdi, fundadora da Surama Jurdi Academy, “no ultranicho, o preço deve refletir o valor percebido e a confiança. O profissional cobra mais porque oferece um serviço superior. Se a entrega não corresponder a essa expectativa, o preço se torna injustificável e o mercado tende a rejeitar”.
Um exemplo único dessa especialização é Manoel Cosme dos Santos, conhecido como Manoel dos Sinos. Ele é o único no Brasil a desenvolver técnicas de restauração e automação de sinos de igrejas e relógios de torre. “O trabalho é desafiador e pode levar tempo. Por exemplo, estou trabalhando na restauração de sinos na Catedral do Rio de Janeiro, onde o maior pesa 3,5 toneladas”, conta Manoel. Sua exclusividade na área o torna uma referência, sempre requisitado por diferentes instituições.
O serviço pode ser árduo, mas para ele, como para muitos que atuam em serviços ultranichados, a dedicação e a paixão pelo que fazem compensam os desafios enfrentados.
