Nova Reserva em Minas Gerais Protege o Cerrado e Comunidades Tradicionais
Anunciada durante a COP15 das Espécies Migratórias, a recém-criada Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Córrego dos Vales, localizada no Norte de Minas Gerais, destina-se a preservar aproximadamente 37 mil hectares de vegetação nativa do Cerrado, além de proteger comunidades tradicionais que exercem práticas sustentáveis na região há gerações. A reserva integra áreas dos municípios de Riacho dos Machados, Serranópolis de Minas e Rio Pardo de Minas, formando um importante complexo de áreas protegidas que é essencial para a preservação de nascentes e de espécies endêmicas da Serra do Espinhaço.
“Esta região é estratégica, pois contém áreas vitais para a recarga hídrica e a proteção de nascentes que alimentam grandes bacias, entre elas a do rio São Francisco. Adicionalmente, é uma zona de transição entre os biomas Cerrado e Caatinga, possuindo uma biodiversidade adaptada às condições mais secas. O local abriga comunidades tradicionais que têm um histórico de manejo dos recursos naturais da região. Por tudo isso, a criação da RDS Córrego dos Vales se mostra fundamental para equilibrar a conservação ambiental com a proteção dos modos de vida locais”, ressalta Bárbara Costa, analista de pesquisa do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).
As Reservas de Desenvolvimento Sustentável são Unidades de Conservação que acolhem populações tradicionais que baseiam suas culturas no uso sustentável dos recursos naturais. Este modelo de reserva permite que essas populações preservem suas tradições e modos de vida, enquanto protege simultaneamente a natureza ao redor. Além disso, a legislação vigente possibilita o uso deste território para atividades como turismo, visitação e pesquisa científica.
A RDS Córrego dos Vales é lar das comunidades geraizeiras, que são povos tradicionais do Cerrado mineiro. Essas comunidades se sustentam através da agricultura familiar, criação de animais livre no pasto nativo e da coleta de frutos do Cerrado. Isabel Castro, pesquisadora do IPAM e membro da coordenação da iniciativa Tô no Mapa, enfatiza que “o conhecimento profundo que os geraizeiros possuem sobre o uso sustentável da terra é fundamental. Garantir a eles a posse do território é não só uma forma de respeitar seus direitos, mas também de valorizar suas práticas, sendo o método mais eficaz para proteger o Cerrado”.
Atualmente, apenas 8,2% do Cerrado está dentro de áreas protegidas, e apenas 2% sob proteção integral, como parques nacionais e estações ecológicas. Com a nova RDS, o Norte de Minas Gerais passa a fazer parte de um mosaico de áreas protegidas que inclui parques estaduais, como Caminho dos Gerais, Serra dos Montes Altos, Verde Grande, Lagoa do Cajueiro, Grão Mogol, Serra Nova e Veredas do Peruaçu, além do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu e da Terra Indígena Xakriabá.
Roberta Rocha, analista de pesquisa do IPAM, explica que “a proximidade entre as áreas protegidas, mesmo sem uma conexão física, é benéfica para a conservação da biodiversidade, pois possibilita o deslocamento de espécies entre fragmentos de vegetação nativa, evitando o isolamento genético. Essa abordagem é crucial para a proteção de ecossistemas diante das alterações no uso do solo e das mudanças climáticas”.
Nos últimos 40 anos, conforme dados da Coleção 10.1 de mapas anuais do MapBiomas, a região que agora integra a RDS viu a perda de 2,1 mil hectares de vegetação nativa, juntamente com mais 6,1 mil hectares em seus arredores. Juntas, essas perdas representam cerca de 7% da área do município de Riacho dos Machados. Além disso, a agropecuária expandiu sua área em 7,5 mil hectares durante o mesmo período, um crescimento de 123% dentro da reserva e de 43% em seu entorno.
A criação da reserva é também um passo crucial para proteger nascentes que abastecem a região, como os córregos Vacaria, Poções e Tamanduá. A composição vegetacional da área, que inclui campos rupestres, apresenta um alto endemismo de espécies de fauna e flora, reforçando sua importância ecológica. Quatro espécies de morcegos e pequenos roedores ameaçados de extinção ou vulneráveis foram identificadas na região, além de três espécies de arbustos endêmicos que são sensíveis a distúrbios ambientais, o que torna a conservação da biodiversidade local ainda mais relevante”, conclui Ana Gabriela Souza, analista de pesquisa do IPAM.
