Uma Trajetória de Desafios e Superação
Em 2019, fui aposentado por invalidez no serviço público federal. Na época, tinha cerca de quarenta anos e já acumulava mais de uma década de dedicação à União, sendo metade desse tempo na Ancine (Agência Nacional do Cinema) e a outra na Polícia Federal.
Por um período, tive dificuldades em aceitar que o serviço público era realmente minha vocação. Inicialmente, tentei me tornar escritor, depois cineasta, talvez na esperança de agradar minha mãe, uma professora de português aposentada em Minas Gerais. Entretanto, a veia artística não se manifestou e, sem direção, acabei enveredando para a faculdade de engenharia, talvez para corresponder às expectativas do meu pai, um engenheiro civil.
O tempo passou e, de repente, me vi imerso no cotidiano burocrático de uma repartição pública, cercado por carimbos e processos. O dia a dia era repleto de instruções e despachos, sempre com aquela obsessão em cumprir horários e acumular bancos de horas para garantir minhas férias. Foi então que compreendi que não buscava apenas agradar a meus pais, mas também honrar a memória do meu avô Ataíde, funcionário do IBGE em Minas, que cultivava o hábito de ler jornais e exibir fotos de presidentes na sala de casa. Ele não viveu para ver o neto se filiar ao Partido Comunista, mas sua influência ficou marcada.
O Despertar da Vocação
Desde pequeno, tinha um interesse peculiar pela política, me atraindo mais pelas páginas dedicadas aos assuntos do que pelo mundo dos esportes. Cresci, finalmente, com um diploma de engenharia eletrônica e telecomunicações em mãos, mas sem perspectivas reais de carreira. A promessa neoliberal daquela época sugeria que as privatizações e a estabilidade econômica trariam uma avalanche de empregos no setor de tecnologia. Contudo, a realidade se mostrava bem diferente.
Com diploma na mão e nada concreto à minha frente, tentei, em vão, diversas seleções para trainee. O que eu precisava ser? Dinâmico e comunicativo. Características que nunca foram meu forte. Meu verdadeiro talento sempre foi o estudo, mas não consegui transformar isso em uma oportunidade financeira. Assim, decidi me preparar para concursos públicos.
Foi um período de descoberta. Acordar cedo, vestir uma camisa de botão, calçar sapatos e atravessar o Aterro do Flamengo até a Cinelândia se tornou uma rotina. Meu dia seguia sereno, cercado por planilhas e processos, até que, ao voltar para casa, eu acendia um cigarro e abria uma garrafa de cachaça, prolongando minhas noites em frente ao computador.
Uma Nova Missão
Contudo, viver no Rio de Janeiro trouxe novos desafios e reflexões. Envolvido pelo cinema nacional e suas questões sociais, percebi que desejava atuar em uma esfera mais crítica, especialmente nas áreas de Saúde e Segurança Pública. Isso me levou a estudar para concursos policiais, e quem sabe um dia, até mesmo entrar na Medicina.
Em 2013, tomei posse como agente da Polícia Federal em Belém do Pará. O ambiente de trabalho era familiar: planilhas, processos e a rotina de carimbos. A única novidade ali era a Glock que eu carregava e as algemas que levava no bolso — utilizadas raramente, mas sempre alertas. Minha missão havia mudado: não mais discutir cinema, mas combater a pornografia infantil na internet e proteger crianças indefesas.
Um Evento que Mudou Tudo
O trabalho fluía até que uma noite, após apoiar a escolta de uma detida, voltei para casa e fui surpreendido por assaltantes tentando roubar meu carro. O resultado foi um confronto em que um tiro meu não acertou alvo, mas o disparo deles atingiu minha cabeça. Quando acordei meses depois, o cenário político nacional havia mudado drasticamente; a esquerda sofreu um golpe, e a apatia em relação aos servidores públicos ficou evidente.
Me vi em uma situação complicada: aprendera com colegas de ideologia que o Estado era o opressor dos trabalhadores, mas agora sentia a urgência de defendê-lo. O sentimento de traição me consumiu.
Em Busca de Um Novo Caminho
Aposentado aos quarenta anos, no auge da minha capacidade cognitiva, desejei continuar a trabalhar, fazer a diferença — nem que fosse por meio de carimbos e planilhas. No entanto, foram tiradas de mim as ferramentas que me permitiriam continuar. O desejo de servir é algo difícil de apagar. Pergunte a qualquer soldado, professor ou enfermeiro que atua na linha de frente.
Com essa convicção, resolvi trilhar um novo caminho: a Medicina. Um percurso que garante desafios e sacrifícios. Às vezes, a tentação de desistir é forte. Porém, será que conseguiria aceitar a ideia de desistir? Faltam provas e o internato pela frente. O que diria meu avô Ataíde se eu parasse agora? E eu mesmo, conseguiria me perdoar? O relógio de ponto permanece em minha lembrança, e a sensação de saudade é inegável.
