O Legado do Festival Internacional de Arte Negra
O Festival Internacional de Arte Negra (FAN) surgiu em 1995, redefinindo o panorama cultural de Belo Horizonte, uma cidade que, até então, alocava seus recursos públicos quase que exclusivamente em favor de artistas brancos. Para minha frustração, eu tinha apenas 11 anos naquela época e não pude vivenciar esse importante momento histórico. Com um patrocínio que na época alcançava um milhão de reais — hoje equivalentes a mais de seis milhões e meio — a cidade se viu inundada por vozes, ritmos e expressões artísticas oriundas de diversos países, como Estados Unidos, Senegal, Cuba e Gana. O mundo negro encontrou seu espaço em Belo Horizonte, abrangendo cinema, artes visuais e teatro, uma riqueza cultural impossível de ser resumida em um simples artigo.
A programação musical do festival, por sua vez, era simplesmente avassaladora. Com a presença de ícones como Tim Maia, Elza Soares, Racionais MC’s e outros grandes nomes, o evento não apenas apresentava artistas; ele convocava ancestralidades. O FAN transformou a cidade em um palco vibrante, estendendo sua influência a teatros, praças e bairros, fazendo com que Belo Horizonte deixasse de ser um mero cartão-postal.
Um Festival em Declínio
Trinta anos após sua fundação, o que restou desse vibrante festival? O FAN se aproxima de sua vigésima segunda edição, marcada para 2025, mas apresenta um orçamento alarmante de apenas R$ 2.600.000,00 e uma programação que carece de curadoria, risco e conflito. Esta falta de curadoria não é um mero descuido, mas sim uma estratégia. A gestão do festival, ao agir de maneira unilateral, ignora a participação da comunidade, impondo um autoritarismo cultural sob a aparência de administração.
As justificativas se repetem como um mantra: “não há recursos disponíveis”, “o orçamento está sendo cortado”, “faremos o possível”. Nesse contexto, artistas negros são forçados a sobreviver em silêncio, pois levantar questões pode ser custoso. O medo de represálias silencia vozes críticas, e a política do medo se instala, levando à resignação e à aceitação do pouco que é oferecido.
Contrastes Absurdo
Entretanto, em um momento inesperado, surgem cinco milhões de reais para um evento cristão de um único dia, o “Vira Brasil”, programado para 31 de dezembro na Arena MRV. Esse valor é quase o dobro do que é destinado a um festival que carrega três décadas de história. O Estado se diz laico, mas o dinheiro público parece favorecer determinados credos e eventos, enquanto se ignora a rica diversidade cultural da cidade.
A questão que permanece é: quantos artistas negros terão a oportunidade de se apresentar nesse evento? Assim, a cultura negra continua a ser relegada à condição de prioridade secundária, enquanto recursos públicos são alocados a eventos efêmeros.
Implicações Culturais e Raciais
Se alegar que o racismo institucional influencia tais decisões pode parecer uma acusação forte, é uma realidade que não pode ser ignorada. O descaso em relação a um festival internacional, que deveria contar com atrações diversificadas e um apelo cultural significativo, levanta questões pertinentes sobre as prioridades da gestão pública. Como uma cidade onde a maior parte da população se autodeclara negra pode permitir que um festival de grande relevância seja tratado com desdém?
O FAN não desapareceu por acaso. Ele está sendo lentamente sufocado. E essa asfixia à arte negra tem raízes profundas, sendo um projeto sistemático e eficaz. Contudo, é importante lembrar que o que começou como um movimento de ruptura não se sujeitará a ser silenciado. O FAN é mais do que um festival; é um clamor. E gritos não se administram. O futuro do Festival Internacional de Arte Negra depende de nosso compromisso em lutar por um espaço que celebre e amplifique as vozes negras em nossa sociedade.
