Uma Vida Dedicada à Arte e à Liberdade
Dedico este artigo a João Santos, artista e biógrafo de Teuda Bara, que foi seu fiel escudeiro nos últimos anos. Teuda nos deixou no dia 25 de dezembro, em plena celebração do Natal, uma data que sempre foi especial para ela, frequentemente comemorada com uma farta bacalhoada em sua casa, rodeada por familiares e amigos.
A ausência de Teuda torna o mundo mais sombrio e entediante. Hoje, 1º de janeiro, ela completaria 85 anos. Restamos apenas a seguir em frente, mesmo sem sua presença iluminada, marcada por uma simpatia contagiante e uma gargalhada estrondosa.
Teuda vivia intensamente, com um espírito catártico, anarquista e espontâneo. Sua natureza libertária não provinha apenas de uma convicção, mas era intrínseca a ela. A arte e o teatro foram os palcos que permitiram a expressão livre de seu espírito indomável. Sem levantar bandeiras, ela desafiou as normas, desconsiderou convenções e rompeu barreiras em um país marcado pelo autoritarismo, injustiça e violência.
Um Legado Teatral Inigualável
Nascida Teuda Magalhães Fernandes, seu nome artístico foi inspirado na atriz de cinema mudo Theda Bara, em uma homenagem feita pelo ousado diretor Eid Ribeiro, que abriu as portas do teatro para ela. Teuda era filha de Augusto, trompetista da banda da Polícia Militar de Minas Gerais, e Helena, uma fervorosa católica que adorava cantar em rodas de música, criando paródias que criticavam o comportamento boêmio de seu esposo.
As disputas do casal resultaram em um curioso duplo registro de nascimento para Teuda: Sônia, nome dado pelo pai, e Teuda, a escolha da mãe para evitar associações indesejadas. Essa dupla identidade, que poderia ser útil em tempos sombrios, refletia um contexto de resistência e luta contra a censura e a repressão imposta pela ditadura militar que se instalou após o golpe de 1964.
Teuda começou a se destacar no movimento estudantil, circulando pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG. Lembro-me de vê-la, já uma figura pública, desfilando de maneira exuberante, até nua, em uma banheira durante a peça “Triptoleno 17”, dirigida pelo mesmo Eid Ribeiro. A ousadia era tanta que, mesmo sob censura, a equipe decidiu apresentar a obra na íntegra, resultando no cancelamento da temporada.
Teuda e o Teatro Livre de Munique
Nos anos seguintes, Teuda mudaria para São Paulo, unindo-se a outros artistas mineiros, onde viveria a experiência do Teatro Oficina, imersa na contracultura do movimento hippie. Durante esse período, nasceu seu segundo filho, Admar. Teuda costumava contar que, mesmo em condições precárias e com olhares desaprovadores, José Celso celebrou sua maternidade como um sopro de vida renovado.
Em 1982, já de volta a Belo Horizonte, Teuda se tornou mãe solteira, criando seus filhos e sendo atraída novamente pelo furor do teatro. Foi quando diretores da companhia alemã, Teatro Livre de Munique, chegaram à cidade para ministrar uma oficina que se tornou uma verdadeira maratona, dos quase 90 inscritos, apenas 20 resistiram. Desses, nove foram selecionados para dar continuidade ao trabalho, que culminou na montagem da peça “A alma boa de Setsuan”, de Brecht.
Embora a peça tenha tido uma vida curta, a experiência deixou um forte vínculo entre os atores, resultando na formação do Grupo Galpão, que perdura até hoje, moldado por amizade e comprometimento.
Teuda: Uma Mãe Protetora e Artista Marcante
Com uma aparência que lembrava as cholas bolivianas e uma presença marcante, Teuda simbolizava a diversidade no Galpão. Era como uma verdadeira Pacha Mama, a mãe que abraça e protege. Sua trajetória é marcada por personagens que defendiam os desprotegidos, como a ama de Julieta em “Romeu e Julieta”, e a Mãe que lutava por justiça em “Till, a saga de um herói torto”.
Teuda também brilhou em outros papéis memoráveis, como a mulher muda em “A comédia da esposa muda” e a criada crítica em “O doente imaginário”. Sua habilidade de encarnar personagens cativantes e tocar a audiência era inegável. Seu carisma também a levou a uma participação no Cirque du Soleil, onde passou mais de três anos, uma prova de sua singularidade.
Últimos Anos e o Legado de Teuda
Nos anos mais recentes, mesmo enfrentando problemas de saúde, Teuda sempre renascia ao subir ao palco. Sua última apresentação foi no dia 13 de dezembro, quando encarnou uma personagem em “Doida”, com direção de Inês Peixoto. Apesar de todas as dificuldades, ela se dedicou profundamente ao seu trabalho, um verdadeiro exemplo de entrega e amor pela arte.
Teuda Bara partiu 11 dias depois, mas sua essência permanecerá viva. A perda dela é sentida como a queda de uma das colunas do Galpão, uma dor semelhante à perda de Wanda Fernandes em 1994.
Como podemos seguir em frente? É essencial honrar a memória de Teuda, uma mulher extraordinária que desafiou limites e preconceitos, criando uma família e fazendo teatro com dignidade. Seu legado de dignidade e amor à vida não é apenas uma inspiração para o Galpão, mas para todos nós.
