Desafios e Oportunidades para os Produtores de Queijo
A recente assinatura do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia (UE) gerou diversas reações entre produtores e comerciantes de queijo em Minas Gerais. Enquanto alguns veem a possibilidade de expansão do mercado para produtos locais, outros expressam preocupações sobre a competitividade diante da entrada de queijos europeus no Brasil.
Os produtores do Queijo Minas Artesanal (QMA) acreditam que o acordo pode abrir novas portas, enquanto aqueles que fabricam queijos clássicos europeus, como gouda e parmesão, temem a concorrência desleal e a possibilidade de queijos importados cheguem ao país com preços mais baixos.
Anderson Pereira Maciel, gerente do Sítio Paiolzinho, em Cruzília, destaca sua apreensão em relação à abertura comercial. Ele argumenta que a pressão competitiva pode resultar em queijos europeus a preços mais acessíveis no mercado brasileiro. ‘O queijo Parmigiano-Reggiano custa R$ 300 o quilo aqui no Brasil. Com o novo acordo, ele pode chegar mais barato, tornando-se mais competitivo’, afirma.
A Competitividade dos Queijos Artesanais
Hugo Almeida Ferreira, proprietário da Ouro Canastra Q’jaria, ressalta que os queijos europeus já competem com os artesanais mineiros mesmo antes do acordo. Ele aponta que os produtores locais enfrentam custos elevados para se adequar às normas sanitárias, o que prejudica sua competitividade. ‘Na França, o agro é amplamente subsidiado, permitindo uma produção com custos mais baixos’, explica.
José Ricardo Ozólio, presidente da Associação dos Produtores Artesanais de Queijo do Serro (APAQS), também destaca dois aspectos cruciais desse acordo: o primeiro é que os consumidores terão parâmetros para comparar o Queijo Minas Artesanal com os queijos europeus, e o segundo é que a oferta de queijos locais pode ter um diferencial de sabor.
De acordo com Anderson, a adaptação dos queijos artesanais ao paladar brasileiro pode ser uma vantagem. Ele menciona que o gorgonzola típico, com 90 dias de maturação, pode não agradar a todos. ‘Por isso, criamos o Azul da Mantiqueira, que tem 45 dias de maturação’, diz.
Produção Artesanal e Desafios Regulatórios
Outro ponto levantado por José Ricardo é a limitação da produção artesanal, que muitas vezes não consegue atender às exigências do novo acordo. ‘Precisamos revisitar o conceito de produção artesanal. A cooperativa do Serro, por exemplo, já opera como um entreposto comercial, agregando valor ao rótulo do produto’, propõe.
Para ele, a implementação de um plano de Estado que ajude a superar barreiras sanitárias é essencial, assim como as novas regulamentações do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA), que visam facilitar a atividade produtiva. ‘Se não cuidarmos da nossa produção e não nos organizarmos, a viabilidade do queijo artesanal mineiro estará ameaçada’, alerta.
Potencial de Exportação e Denominação de Origem
Manoela Teixeira de Oliveira, assessora técnica da Secretaria de Agricultura de Minas Gerais, afirma que o estado tem potencial para exportar queijos para a União Europeia no longo prazo. O acordo prevê uma cota tarifária de 3 mil toneladas para o Mercosul, que pode atingir até 30 mil toneladas após dez anos.
Entretanto, um dos aspectos críticos do acordo é o respeito às denominações de origem. De acordo com Manoela, os países não podem fabricar produtos com nomes já protegidos, o que pode impactar os queijos artesanais brasileiros. ‘O acordo garante a proteção de 350 indicações geográficas europeias’, explica.
Por outro lado, existem exceções que permitem que produtos como certos queijos parmesão e gorgonzola possam ser vendidos, desde que respeitadas algumas condições. ‘O Sítio Paiolzinho, por exemplo, é uma das 263 empresas autorizadas a usar a denominação “parmesão”, pois cumpre as características do produto original’, comenta Anderson.
Perspectivas Futuras para o Setor
Em suma, os produtores de queijo de Minas Gerais estão divididos em suas opiniões sobre os impactos do acordo Mercosul-UE. Enquanto alguns veem oportunidades de expansão, outros se preocupam com a concorrência e a sustentabilidade de seus negócios. A adaptação às novas regulamentações e a busca por competitividade serão fundamentais para garantir que o Queijo Minas Artesanal continue a ter um lugar de destaque tanto no mercado local quanto internacional.
