O que é o Açúcar Funcional?
Recentes pesquisas brasileiras estão abrindo portas para a produção de um açúcar funcional, conhecido na comunidade científica, que pode agora ser fabricado em solo nacional. A iniciativa vem de um grupo de estudiosos da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL-MG) em colaboração com outras instituições.
Este açúcar, derivado da sacarose da cana-de-açúcar, é transformado por meio de uma enzima em um composto chamado frutooligossacarídeo (FOS), uma alternativa saudável ao açúcar comum. O pesquisador Rafael Firmani Perna enfatiza: “Por que não aproveitar a sacarose, a maior produção do Brasil, e convertê-la em FOS com tecnologia nacional? Isso poderia reduzir custos, aumentar nossa autonomia tecnológica e fornecer acesso à população a um produto mais saudável”.
Embora os FOS não sejam uma inovação recente, pois já são usados em vários países como ingredientes prebióticos, sua utilização está aprovada no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Pesquisas no país estão em andamento para explorar mais aplicações e processos relacionados a açúcares funcionais.
Diferenciais do FOS em Relação ao Açúcar Tradicional
A principal distinção entre os frutooligossacarídeos e o açúcar tradicional reside na forma como o corpo humano metaboliza cada um. Segundo Perna, o organismo não consegue quebrar completamente as ligações entre as moléculas de frutose dos FOS. Como resultado, esses compostos chegam intactos ao intestino grosso, servindo de alimento para as bactérias benéficas da microbiota intestinal, diferentemente do açúcar comum, que é rapidamente absorvido e pode elevar os níveis de glicose no sangue.
“Os FOS possuem baixa caloria (de 1 a 1,5 kcal/g) e um índice glicêmico reduzido. Ao contrário, os açúcares convencionais geram energia de forma rápida, podendo ocasionar um aumento nos níveis de glicose e insulina”, explica o pesquisador.
Benefícios dos FOS para a Saúde
Estudos já realizados indicam que os frutooligossacarídeos, como ingredientes prebióticos, oferecem vários benefícios à saúde, tanto humana quanto animal. Além de serem baixos em calorias, eles ajudam na absorção de minerais essenciais como cálcio e magnésio, podendo auxiliar no tratamento de condições como anemia, hipertensão e intolerância à lactose.
Adicionalmente, os FOS possuem uma ação anti-cariogênica, já que não fermentam na boca como os açúcares tradicionais. Isso os torna uma alternativa mais segura para diabéticos, desde que o consumo seja feito sob orientação médica, uma vez que ainda podem influenciar a glicemia quando ingeridos em grandes quantidades.
“Isso não significa que possam ser consumidos sem limites. Alimentos com FOS, dependendo da quantidade, também podem afetar a glicemia. É essencial que os indivíduos consultem um profissional de saúde, visto que cada caso de diabetes é único”, completa.
Potencial de Uso na Culinária
Na prática, este açúcar funcional pode futuramente substituir parcialmente o açúcar refinado em diversas receitas, como pães, bolos e bebidas, já que mantém uma boa estabilidade ao calor. São especialmente promissores para dietas com restrição calórica e para produtos voltados à saúde intestinal.
“Os FOS podem adoçar receitas, sendo que sua doçura varia entre 30% a 60% da sacarose convencional, o que pode exigir ajustes nas quantidades usadas. No entanto, é importante lembrar que o consumo excessivo pode causar desconfortos gastrointestinais, como gases ou diarreia”, alerta o especialista.
Desenvolvimento e Desafios da Tecnologia no Brasil
A pesquisa para produzir FOS nacionalmente começou em 2004 e atualmente está em fase avançada, concentrando esforços na purificação e viabilidade econômica do processo. A escolha da sacarose da cana-de-açúcar como recurso é estratégica, dada sua abundância no Brasil e seu custo relativamente baixo.
O processo envolve enzimas do fungo Aspergillus oryzae IPT-301, que têm a capacidade de converter sacarose em FOS. “A robustez do processo foi aprimorada por meio da imobilização de enzimas em diferentes suportes, aumentando a vida útil do biocatalisador e garantindo uma operação contínua”, detalha Perna.
O grupo de pesquisa, que inclui instituições como o Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo e a Universidade Estadual Paulista (UNESP), tem avançado em publicações científicas sobre o tema e está avaliando a proteção intelectual da tecnologia desenvolvida.
Caminho para a Produção em Larga Escala
Apesar dos progressos, a produção de FOS no Brasil ainda não atingiu uma escala industrial. Os pesquisadores apontam que as dificuldade tecnológicas e estruturais do país são os principais obstáculos. “A produção envolve processos enzimáticos de alto custo e requer um controle rigoroso das condições reacionais e da purificação do produto final. Poucos laboratórios dominam essas etapas em escala piloto”, esclarece.
Além das dificuldades técnicas, os altos custos de importação de enzimas e a complexidade logística dificultam a competitividade dos FOS importados. Uma produção local poderia drenar custos e garantir a autonomia necessária.
“Em 2024, vamos desenvolver etapas cruciais na recuperação e purificação do bioproduto, que consomem cerca de 70%-80% dos custos operacionais. Estamos obtendo resultados promissores”, conclui o pesquisador.
Se a produção do chamado “açúcar do bem” se tornar viável economicamente, seu consumo poderá se expandir, beneficiando especialmente comunidades de menor renda, promovendo assim a saúde pública e a educação nutricional.”
