A história de afegãos que buscam reconstruir suas vidas em um novo lar
Após a queda de Cabul em agosto de 2021, a vida de milhares de afegãos se transformou radicalmente. O retorno do Talibã não foi apenas um marco político; representou uma ameaça real à segurança e ao futuro de muitas famílias. A partir daquele momento, tudo que havia sido cuidadosamente construído foi dissolvido em meio ao medo e à instabilidade. Jornalistas, defensores dos direitos humanos, minorias e outros grupos vulneráveis foram forçados a deixar suas casas e buscar refúgio em locais incertos. Para muitos, a fuga envolveu atravessar fronteiras perigosas, na esperança de encontrar alguma forma de segurança.
Alguns afegãos, incluindo eu, fixaram nossos olhos em um destino que parecia longínquo e desconhecido: o Brasil. Um país cujas tradições e língua eram, para nós, estranhas e desconhecidas. No entanto, o Brasil se destacou em meio à crise ao oferecer uma oportunidade crucial: uma linha de vida. Em 3 de setembro de 2021, o governo brasileiro anunciou a Portaria Interministerial nº 24/2021, que permitia a concessão de vistos humanitários a cidadãos afegãos e apátridas afetados pela turbulência no Afeganistão. Para muitos, isso foi um sinal de esperança; uma chance legal de recomeçar. Fui uma das poucas pessoas afortunadas a conseguir essa oportunidade.
Porém, ao pisar em solo brasileiro, percebi que a segurança não se traduzia necessariamente em estabilidade ou pertencimento. As primeiras semanas foram marcadas por abrigos temporários, trâmites burocráticos e um sentimento profundo de isolamento. Ao contrário de outros grupos migrantes, os afegãos chegaram ao Brasil, em sua maioria, sem uma rede de apoio social ou cultural. Sem uma diáspora afegã estruturada, muitos foram enviados a estados distantes, como Minas Gerais e Acre, onde não conheciam ninguém e mal entendiam o ambiente ao seu redor. Essa nova realidade, longe de casa, exacerbava o trauma que já carregávamos.
A língua se tornou a principal barreira. O português, uma língua rica e bela, era completamente alheio a nós. Atividades cotidianas, como ir ao mercado, consultar um médico ou matricular crianças na escola, transformaram-se em verdadeiros exercícios de improvisação e ansiedade. O Google Tradutor era útil, mas não substituía a fluência. Erros de tradução poderiam causar mal-entendidos sérios, especialmente ao lidar com autoridades ou proprietários. A dificuldade na comunicação fez muitos de nós sentirem-se invisíveis e impotentes. A língua, portanto, era mais que uma ferramenta; era um portal, um obstáculo que nos mantinha à margem da sociedade.
A burocracia complicava ainda mais nossa situação. A obtenção de documentos de residência, autorizações de trabalho e CPF exigia que navegássemos por um sistema repleto de desafios. Algumas organizações locais tentaram ajudar, mas a demanda por assistência superava em muito a oferta. Muitos imigrantes afegãos permaneceram em um limbo legal por longos períodos, sem a possibilidade de trabalhar formalmente ou planejar um futuro. O emprego, quando disponível, frequentemente não refletia nossas qualificações. Engenheiros passaram a ser entregadores, professores tornaram-se empregados domésticos e médicos, assistentes. Cada nova adaptação vinha carregada de frustração e de uma sensação de identidade fragmentada.
Essas perdas não se limitam ao âmbito profissional; elas atingem também o emocional. A migração forçada intensifica traumas. Ao chegarmos ao Brasil, trazíamos não apenas nossas bagagens, mas também memórias de perseguições e perdas. O isolamento, a insegurança financeira e a incerteza sobre o que viria a seguir amplificavam os problemas de saúde mental, enquanto o acesso a apoio psicológico culturalmente relevante continuava escasso.
Os desafios se estendem também à vida comunitária. Ao contrário de migrantes de nações com diásporas estabelecidas no Brasil, os afegãos frequentemente não têm onde buscar suporte. Questões simples, como encontrar habitação, acessar serviços públicos ou inscrever filhos na escola, tornam-se verdadeiras batalhas. Diferenças culturais e a falta de orientação criam um estresse adicional que persiste muito além do momento da chegada. Para muitos, a promessa de segurança parece frágil, como uma pausa temporária antes de outra jornada incerta.
Frente a essas dificuldades, alguns afegãos buscam rotas migratórias alternativas, movidos pela esperança de um futuro melhor. No entanto, essas novas tentativas podem se revelar extremamente arriscadas, expondo-os a ameaças como exploração e tráfico humano. Essa é a ironia cruel da migração: fugir de uma situação de risco apenas para se deparar com outra.
Apesar de tudo, a resiliência prevalece. Famílias afegãs no Brasil estão se esforçando para aprender português, buscando educação e tentando formar comunidades. Crianças estão indo à escola, fazendo amigos e começando a sonhar com futuros longe do medo que deixaram para trás. Lentamente, estamos começando a conquistar nosso espaço em um país que, embora estranho, nos ofereceu a possibilidade de um novo começo.
O programa de vistos humanitários do Brasil foi um passo imprescindível. No entanto, a verdadeira essência do humanitarismo não se resume a papéis; trata-se da capacidade de viver, trabalhar e sentir-se parte de uma comunidade. Segurança sem apoio é uma miragem. Proteção sem inclusão é temporária. Para uma verdadeira integração, é preciso investir em educação linguística, acesso a empregos dignos, reconhecimento de diplomas e serviços de saúde mental adequados. É fundamental ouvir as vozes dos migrantes e incluí-los nas políticas que influenciam suas vidas.
A presença dos afegãos no Brasil não é um fenômeno isolado, mas uma parte de um contexto global marcado por conflitos e desigualdades. A maneira como o Brasil e o mundo responderem a essa realidade determinará não apenas o futuro dessas populações deslocadas, mas também a ética do sistema internacional. A dignidade humana não começa com a emissão de um visto, mas na possibilidade de viver plenamente e sentir-se em casa. Enquanto essa meta não for alcançada, os vistos humanitários são apenas promessas não cumpridas, uma esperança que poderia ser real, mas que é enfraquecida pela falta de ação.
Para mim, o Brasil representa uma segunda chance — um espaço para reconstruir, sonhar e crescer, apesar das perdas. Contudo, minha história ainda está em andamento, ecoando a de milhares de afegãos que continuam a viver na incerteza, lutando para encontrar seu lugar e esperando que o mundo transforme boas intenções em inclusão genuína.
