A Revolução do Astroturismo no Brasil
O Brasil está se destacando como um destino promissor para o astroturismo, com 35 parques nacionais já aptos para a observação das estrelas. Essa evolução é fruto do trabalho da turismólogas Amanda Marcial e Valéria de Almeida, que deixaram Belo Horizonte em 2022 para fundar uma empresa em Carangola, Minas Gerais, situada entre a Serra do Brigadeiro e o Parque Nacional do Caparaó. A ideia inicial foi criar uma trilha ligando essas duas áreas, e o percurso já está registrado na Rede Brasileira de Trilhas. Durante suas frequentes visitas ao local, Amanda percebeu que o céu ali era incomparável ao da cidade. Essa descoberta a levou a realizar uma série de pesquisas, que a conectaram com o professor Daniel Mello, um renomado astrônomo do Observatório do Valongo da UFRJ.
O Ministério do Turismo, ao reconhecer o potencial dessa nova tendência, afirma que o astroturismo está se consolidando como uma atividade que atrai cada vez mais visitantes. Amanda conta que, após um ano e meio de conversas com Mello, ele finalmente aceitou o convite para conhecer a Serra do Brigadeiro, onde confirmou que o local possuía as três características necessárias para ser reconhecido como um “parque de céu escuro”: baixa iluminação artificial, boa qualidade de observação e a capacidade de receber visitantes durante a noite.
Características dos Parques Nacionais para Astroturismo
“Desenvolvemos uma metodologia para medir a poluição luminosa, que nos permite avaliar a qualidade do céu para a observação de estrelas. Precisamos cuidar desse aspecto se quisermos que o astroturismo continue a crescer no Brasil”, explica Mello. Ele também preside o Conselho Consultivo do Instituto AstroParques, que oferece análises técnicas para certificar espaços como aptos para a observação astronômica. As análises necessárias para oficializar a certificação da Serra do Brigadeiro estão em fase final e devem ser concluídas ao longo do próximo ano.
Dentre os parques que se destacam para a prática do astroturismo, podemos citar:
- Santa Maria Madalena (RJ): Conhecida como a Cidade das Estrelas, é o único local na América Latina com certificação internacional e recebe turistas da Europa e dos Estados Unidos para eventos anuais.
- Serra do Brigadeiro (MG): Cumpre todos os requisitos para se tornar o segundo parque a receber o selo internacional de “proteção do céu escuro”.
- Chapada dos Veadeiros (GO): Destaca-se como um dos melhores locais para a observação de estrelas, conforme o índice Iastro do Instituto Entre Parques.
- Serra da Canastra (MG): Com suas cachoeiras e mirantes, o parque implementou práticas de adequação de iluminação externa, aumentando seu apelo entre os astroturistas.
- Lençóis Maranhenses (MA): Oferece agências que organizam passeios que vão desde a apreciação do pôr do sol até a observação de constelações à noite.
Eventos e Participação da Comunidade Local
Amanda relata que já foram realizadas cinco sessões astronômicas voltadas para turistas e voluntários da comunidade. Inicialmente, um evento reuniu 120 pessoas, e em outra edição, contaram com representantes de 22 municípios da região. Os encontros costumam reunir grupos de 40 a 60 participantes, limitados pela quantidade de equipamentos disponíveis, como telescópios e binóculos. No entanto, já existem empresas na área oferecendo passeios para a Serra do Brigadeiro.
Na América Latina, o único local a conquistar o título de Dark Sky é o Parque Estadual do Desengano, em Santa Maria Madalena. Esse reconhecimento, obtido em 2021, resultou das pesquisas coordenadas por Mello. Desde então, a cidade abriga o Festival das Estrelas, que atraiu cerca de duas mil pessoas em 2025, tornando-se um evento único no Brasil.
Crescimento do Turismo Astronômico
O evento, que já é parte do calendário oficial, se destaca pelo crescimento da procura, que aumentou 60% ano a ano. A programação inclui oficinas, observações com telescópios, planetário móvel e uma variedade de outras atividades gratuitas, conforme relata Anna Mostowik, presidente do Madalena Convention & Visitors Bureau.
O Instituto Entre Parques criou o índice Iastro para avaliar o potencial astroturístico de 75 parques brasileiros, categorizando-os em cinco grupos: excelente, ótimo, muito bom, bom e baixo. Dentre os 33 indicados para a atividade, oito são considerados excelentes e 25 ótimos, embora os parques estaduais, como Brigadeiro e Desengano, não constem nesta lista.
Em suma, o Brasil não apenas abriga uma diversidade de locais propícios para a observação das estrelas, mas também está comprometido com a preservação do céu noturno. A certificação Dark Sky, que já foi concedida a 135 parques no mundo, visa proteger a biodiversidade ao reduzir a poluição luminosa, mostrando que o astroturismo pode ser uma via para a conservação ambiental.
