Um Problema Crescente no Setor Marítimo
Nos últimos meses, o cenário no setor marítimo tem se tornado cada vez mais preocupante. O número de petroleiros e outras embarcações comerciais abandonadas por seus proprietários disparou ao redor do mundo. Esse fenômeno levanta questões cruciais: o que está motivando esse aumento? E como isso afeta a vida dos marinheiros mercantes que ficam à deriva?
Em um relato impactante, Ivan, um funcionário russo de convés, compartilhou sua experiência enquanto estava a bordo de um petroleiro abandonado nas proximidades da China. “Houve falta de carne, grãos, peixe — itens básicos para a sobrevivência”, ele relatou. A situação era crítica: “Estávamos com fome e lutando para sobreviver dia após dia”. O navio em que ele estava, carregando cerca de 750 mil barris de petróleo russo, foi considerado abandonado pela International Transport Workers’ Federation (ITF) em dezembro, após meses sem pagamento para a tripulação.
A embarcação, que partiu do Extremo Oriente da Rússia com destino à China em novembro, não conseguiu acessar portos devido à recusa da China em deixá-la entrar. A ITF, preocupada com a situação, interveio para garantir salários atrasados e fornecer suprimentos essenciais como alimentos e água potável para os tripulantes.
Crescimento Exponencial de Abandonos
Os dados são alarmantes: em 2016, apenas 20 navios foram abandonados globalmente. Em 2025, esse número saltou para 410, afetando mais de 6.000 marinheiros. Esse aumento representa quase um terço em relação ao ano anterior. As causas, segundo especialistas, estão ligadas à instabilidade geopolítica e à pandemia de covid-19, que interromperam cadeias de suprimento e desestabilizaram o mercado de frete, colocando muitas empresas em situação crítica.
A presença crescente das chamadas “frotas fantasmas” é um fator adicional que contribui para a escalada desse problema. Essas embarcações, frequentemente petroleiros, são geralmente de propriedade obscura e operam sem as devidas condições de segurança. Elas costumam navegar sob bandeiras de conveniência, registradas em países com regulamentações mínimas, o que as torna mais propensas ao abandono.
O Papel das Frotas Fantasmas
As frotas fantasmas têm se tornado um recurso importante para países como Rússia, Irã e Venezuela, permitindo a exportação de petróleo bruto mesmo em face de sanções internacionais. A Rússia, por exemplo, continuou a encontrar compradores na China e na Índia, mesmo após a invasão da Ucrânia, que resultou em sanções severas ao seu mercado de petróleo.
Os proprietários de navios que utilizam bandeiras de conveniência, uma prática que remonta há mais de um século, muitas vezes contornam legislações e regulamentações estritas de seus países de origem. Atualmente, países como Panamá, Libéria e Ilhas Marshall dominam esse cenário, respondendo por quase metade da tonelagem total de embarcações mercantes. Porém, a Gâmbia emergiu recentemente como um novo protagonista, apresentando um aumento significativo no registro de navios sob bandeiras de conveniência.
Consequências Humanas e Legais
As diretrizes da Organização Marítima Internacional (IMO) definem abandono marítimo como a situação em que o armador não arca com custos de repatriação ou rompe unilateralmente com o trabalhador, incluindo a falta de pagamento de salários por um período significativo. No último ano, as tripulações abandonadas ao redor do mundo acumulavam mais de US$ 25 milhões em salários atrasados, com a ITF recuperando quase dois terços desse valor.
A maioria das vítimas desse cenário é composta por marinheiros indianos, seguidos por filipinos e sírios. Diante da gravidade da situação, o governo da Índia tomou medidas para proteger seus trabalhadores, blacklistando navios estrangeiros envolvidos em abandono e violações de direitos trabalhistas. Marcas como a da bandeira gambiana demonstram a falta de responsabilidade dos países que permitem tal prática.
Uma Chamada para Ação
Especialistas, como Mark Dickinson, secretário-geral do Nautilus International, enfatizam a necessidade de uma relação mais robusta entre os proprietários de navios e as bandeiras sob as quais operam. A cooperação internacional é vital para proteger os marinheiros das armadilhas do serviço marítimo. A situação atual exige atenção urgente para evitar que trabalhadores como Ivan continuem à mercê de condições desumanas e inseguras. O que está em jogo não é apenas a sobrevivência de marinheiros, mas a integridade do setor marítimo global como um todo.
