Inovação em Palmas, Paraná
Em Palmas, no sul do Brasil, a transformação climática na agricultura começa a se concretizar. O produtor Sérgio Soczek, de 67 anos e com quatro gerações de experiência familiar na lavoura, está às voltas com a colheita de batatas cultivadas utilizando fertilizantes com menor intensidade de carbono. Esta mudança representa um grande passo para uma das cadeias agrícolas mais tecnificadas do país.
Soczek, que cultiva cerca de 700 hectares de batatas, destaca a importância dessa nova abordagem. “A batata sempre foi o carro-chefe da nossa família”, comenta. Contudo, ele observa que o novo desafio é “plantar menos área, produzir mais e alcançar uma rentabilidade melhor, tudo isso com mais sustentabilidade”.
Parceria para a Sustentabilidade
O agricultor integra um grupo de seis produtores paranaenses que participa de um projeto inovador desenvolvido em parceria com a Yara, uma fabricante norueguesa de fertilizantes classificada como a 22ª na lista Agro100 de 2025, e com a PepsiCo, que faturou globalmente US$ 93,9 bilhões (cerca de R$ 491,3 bilhões) em 2025.
Essa área piloto abrange 130 hectares, dos quais 35 são dedicados ao cultivo de Soczek, que já se encontra na fase de colheita. O produtor utilizou fertilizantes que proporcionaram uma redução de até 90% em emissões de carbono. Essa prática contribui para uma diminuição de até 40% na emissão de gases de efeito estufa (GEEs), alinhando-se às metas de sustentabilidade do projeto.
A Importância da Colaboração
Marcelo Altieri, presidente da Yara Brasil, ressalta a relevância dessa parceria. “A colaboração é fundamental para descarbonizarmos a agricultura”, afirma. Ele acredita que produzir alimentos de maneira sustentável exige um esforço conjunto entre produtores, empresas e a indústria, onde o setor de fertilizantes desempenha um papel crucial.
Dados da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) apontam que as emissões da agropecuária globalmente foram de 10,7 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em 2019, correspondendo a cerca de 20% das emissões totais. É vital, portanto, avançar nas iniciativas de descarbonização de fertilizantes e outros insumos.
Expansão das Práticas Sustentáveis
A parceria pioneira na América Latina tem o potencial de beneficiar mais de 20 agricultores, abrangendo aproximadamente 700 hectares de batata em países como México, Colômbia, Chile, Argentina e, agora, no Brasil. A PepsiCo espera impulsionar práticas de agricultura regenerativa em cerca de 4 milhões de hectares até 2030, incluindo cultivos como milho, trigo e cacau.
Ismael Cordeiro, gerente de Sustentabilidade e Transformação no Agronegócio da PepsiCo Brasil, revela que atualmente a empresa compra cerca de 450 mil toneladas de produtos agrícolas no Brasil, sendo 120 mil toneladas somente de batata. Ele destaca que a escolha pela batata se deve ao forte relacionamento com os produtores.
Desafios e Oportunidades
A batata é uma cultura de alta tecnologia e custo, e representa um dos principais desafios para a eficiência agrícola no Brasil. Com despesas que podem atingir R$ 70 mil por hectare, insumos como fertilizantes e defensivos representam uma parte significativa do investimento. Portanto, qualquer tecnologia que aumente a eficiência tem um impacto direto na margem de lucro do produtor.
Soczek, por exemplo, observa que ao utilizar menos fertilizante, é possível aumentar a rentabilidade. “Você vai utilizar bem menos fertilizante, praticamente reduz à metade”, explica. Com o aumento da produção e da qualidade, é possível que ele receba até R$ 250 a mais por tonelada.
Transformação na Indústria de Fertilizantes
A tecnologia que possibilita a produção de fertilizantes com uma redução de até 90% nas emissões de carbono foi desenvolvida na Noruega e lançada globalmente em 2022. Francielle Bertotto, gerente de Sustentabilidade e Cadeia do Alimento da Yara Brasil, explica que a produção utiliza hidrogênio obtido de fontes renováveis, como a eletrólise da água.
Enquanto a eficiência agronômica do fertilizante se mantém, o custo mais elevado pode ser um obstáculo. Atualmente, o preço dos fertilizantes no Brasil está em alta, impulsionado por fatores como a Guerra no Oriente Médio. A PepsiCo, no entanto, está cobrindo essa diferença de custo para que os produtores não sejam impactados financeiramente, focando nos benefícios em produtividade e redução de emissões.
Resultados Futuro da Colheita
Os primeiros testes com a safra de batata de baixo carbono estão em fase de validação, e os resultados econômicos e agronômicos guiarão a expansão do projeto a partir de 2026. Cordeiro afirma que a estratégia não visa criar produtos isolados, mas elevar o padrão de toda a cadeia produtiva.
Assim, no campo, a sustentabilidade avança quando se fecha a conta, e, no caso da cultura da batata, a descarbonização começa pela eficiência. O futuro da agricultura brasileira pode estar, assim, cada vez mais alinhado com práticas sustentáveis e inovadoras.
