A Crise Petrolífera da Venezuela em Contexto
A Venezuela, um dos maiores reservatórios de petróleo do mundo, enfrenta uma grave crise política e econômica após a captura do presidente Nicolás Maduro e sua esposa por autoridades dos Estados Unidos no último sábado (3). Com a situação política instável, Delcy Rodríguez, a vice-presidente, assume a liderança em um cenário de ameaças de novas intervenções militares por parte dos EUA.
O país, que é membro da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), vê suas exportações de petróleo paralisadas por conta do bloqueio imposto pelos EUA a navios-tanque, além de sanções que resultaram na apreensão de dois carregamentos de petróleo no mês anterior. As operações da petrolífera americana Chevron, que ainda conseguia continuar com alguns embarques para os EUA, também foram interrompidas a partir da última quinta-feira, conforme dados divulgados neste domingo (4).
Donald Trump, ao anunciar a detenção de Maduro, afirmou que um “embargo ao petróleo” estava em vigor e que os EUA passariam a “administrar” a Venezuela de forma interina. No entanto, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, adotou uma abordagem mais moderada, esclarecendo que os EUA não irão governar diretamente, mas sim impor uma “quarentena do petróleo” já existente no país.
Fechamento de Campos e Diminuição de Produção
A estatal petrolífera PDVSA tomou medidas drásticas, incluindo o fechamento de campos petrolíferos e conjuntos de poços, devido à saturação de estoques e à falta de diluentes necessários para o transporte do petróleo pesado da Venezuela. A Reuters informou que a empresa solicitou cortes de produção em joint ventures como a Petrolera Sinovensa, Petropiar e Petromonagas, além de outras operações.
Essas medidas foram necessárias devido ao excesso de petróleo extrapesado e à escassez de diluentes, com trabalhadores da Sinovensa se preparando para desligar até dez conjuntos de poços. Apesar da produção tradicionalmente ter como destino a China como forma de quitação de dívidas, o tráfego de superpetroleiros com bandeira chinesa foi interrompido desde dezembro. Já a Petromonagas começou a reduzir sua produção na última semana, à espera da retomada do fornecimento de diluentes por oleodutos.
A Dimensão do Mercado e o Potencial do Petróleo Venezuelano
A Venezuela abriga a maior reserva comprovada de petróleo do mundo, com cerca de 303 bilhões de barris, superando grandes produtores como a Arábia Saudita e o Irã. Entretanto, a maioria de seu petróleo é do tipo extrapesado, o que exige tecnologia avançada e investimentos significativos para extração. Assim, embora o potencial seja vasto, a infraestrutura deficiente e as sanções internacionais têm dificultado a plena exploração desse recurso.
Nas últimas décadas, a produção de petróleo na Venezuela viu uma queda acentuada, passando de um pico de 3,7 milhões de barris por dia em 1970 para apenas 665 mil barris por dia em 2021. Embora tenha havido uma leve recuperação em 2022, com a produção alcançando cerca de 1 milhão de barris por dia, isso ainda representou menos de 1% da produção global de petróleo.
O Papel Histórico do Petróleo na Economia Venezuelana
Historicamente, o petróleo desempenhou um papel crucial na economia da Venezuela, especialmente ao longo do século XX. O país se tornou um dos maiores produtores a partir das descobertas nas décadas de 1920 e 1930 e, em 1960, foi um dos fundadores da Opep. A nacionalização da indústria petrolífera em 1976 resultou na criação da PDVSA, transformando a exploração em um monopólio estatal.
Durante os governos de Hugo Chávez, a receita do petróleo foi amplamente utilizada em programas sociais, enquanto outros setores da economia foram negligenciados. Esse modelo gerou dependência extrema do petróleo, com mais de 90% das exportações venezuelanas oriundas desse recurso entre 1998 e 2019. Quando a produção começou a cair, o país enfrentou sanções internacionais, acentuando ainda mais a crise econômica e desencadeando uma inflação galopante, que, segundo o Banco Central, atingiu 344.510% em 2019.
