Tecnologia em Ação nas Estradas
Um motorista, ao volante de um Fiat Uno, passou a desafiar as normas de segurança ao frequentar diariamente o km 117 da rodovia SP-340, em Campinas (SP), sem utilizar o cinto de segurança. Ele acabou multado 11 vezes consecutivas por essa infração. Este caso emblemático ocorreu em 2023, e foi um dos primeiros registrados após a instalação de câmeras com inteligência artificial em diversas rodovias paulistas.
Esses dispositivos inovadores têm a capacidade de capturar imagens em alta definição, identificando motoristas que falam ao celular ou que não estão usando cinto de segurança, especialmente os passageiros da frente.
Alberto Correia Júnior, gerente de operações da Renovias, a concessionária responsável pela gestão da rodovia, comentou: “Nunca mais tivemos notícias desse condutor; provavelmente, ele começou a usar o cinto de segurança regularmente após as multas.”
Crescimento da Implementação
As câmeras equipadas com inteligência artificial estão se proliferando em várias estradas de São Paulo. Um exemplo é o trecho norte do Rodoanel, que foi inaugurado em dezembro do ano passado e agora conta com 32 dessas câmeras, instaladas em ambos os sentidos de uma via de 24 quilômetros, sendo oito delas localizadas dentro de túneis.
Diogo Stiebler, diretor de Operações da Via Appia, que gerencia o trecho mencionado, afirmou que em breve será inaugurado um centro de controle de operações, onde a Polícia Militar Rodoviária terá uma sala dedicada ao videomonitoramento dos 177 km do Rodoanel.
Um levantamento realizado pela reportagem revelou que pelo menos seis estradas em São Paulo já possuem ou estão em processo de implantação de tecnologia de inteligência artificial para detectar o uso de celulares e a ausência do cinto de segurança. Outras rodovias federais em estados como Minas Gerais, Paraíba e Santa Catarina também estão adotando essa tecnologia.
Impacto na Segurança Viária
Os motoristas que não conseguem evitar o uso do celular enquanto dirigem devem estar atentos. De acordo com a Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo), a implementação dessas câmeras nas rodovias paulistas está sendo feita de forma gradual.
Nos contratos mais recentes de concessão, firmados com dez empresas, está prevista a utilização de tecnologias inteligentes, incluindo câmeras e softwares capazes de flagrar outras infrações, como caminhões nas faixas da esquerda ou veículos trafegando pelo acostamento. Já nas concessões mais antigas, como a da Campinas-Mogi Mirim, esse sistema começou a ser testado em 2022, conforme explica Michel Miranda Borges Costa, gerente de tecnologia da Renovias.
Diferentemente dos radares de velocidade, essas câmeras não podem multar diretamente. Quando uma infração é detectada, a imagem é encaminhada à Polícia Militar Rodoviária, que verifica a foto em suas bases de dados. Apenas após a confirmação da irregularidade é que a multa é emitida.
“O papel do policial militar é essencial, pois ele atua como filtro e é a autoridade responsável pela elaboração do auto de infração”, acrescentou o capitão Vinícius Becker, comandante da 2ª Cia do 4º Batalhão de Polícia Rodoviária na região de Campinas.
Resultados e Expectativas Futuras
As imagens capturadas ficam armazenadas em um banco de dados para possíveis recursos. A legislação de trânsito requer que os motoristas sejam informados sobre a presença de videomonitoramento, que pode ser com ou sem inteligência artificial, por meio de placas ou displays. As câmeras são instaladas em pórticos sobre as estradas e em postes nas laterais.
No dia 29 de janeiro, a reportagem acompanhou o cabo Edirlei da Silva Torres, em Mogi Mirim, que durante uma hora, entre 9h59 e 10h59, recebeu 23 imagens que seriam analisadas posteriormente para a emissão de possíveis multas. “A qualidade das câmeras e do zoom atuais permite observar situações que antes não eram visíveis”, destacou Stiebler.
Entre janeiro e setembro do ano passado, os dois pórticos com câmeras inteligentes na SP-340 registraram mais de 9.000 multas por uso de celular e 3.000 por falta de cinto de segurança. É comum que um veículo seja multado duas vezes pela mesma imagem, uma vez por cada infração. “Os dados são alarmantes, pois revelam comportamentos extremamente perigosos”, afirmou o capitão Becker.
Um exemplo impactante ocorreu na rodovia Prefeito Antonio Duarte Nogueira, em Ribeirão Preto, onde um motorista sem cinto de segurança foi flagrado segurando um celular, enquanto uma criança também desprotegida estava no banco da frente. Ariel Santos Garavine, especialista em segurança viária da concessionária Entrevias, observou que nesse trecho circulam cerca de 91 mil veículos diariamente, e as câmeras com IA são responsáveis por 1.500 flagrantes.
A empresa tem intensificado campanhas educativas, distribuindo materiais informativos sobre a presença de inteligência artificial nas câmeras. “Podemos reprogramar essas câmeras a qualquer momento”, observou Garavine. “O objetivo é diminuir a imprudência e os acidentes.”
No caso da Campinas-Mogi Mirim, segundo Correia Júnior, os acidentes fatais na estrada diminuíram 16,8% no último ano, resultado que pode ser atribuído em parte à mudança de comportamento dos motoristas influenciada pela presença das câmeras.
O avanço da fiscalização rodoviária tende a continuar. Jeferson Almeida, coordenador-geral de Segurança Viária da Polícia Rodoviária Federal, mencionou que já estão sendo planejados estudos para a utilização de drones equipados com a mesma tecnologia de inteligência artificial das câmeras fixas para realizar flagras em movimento. “Uma equipe está dedicada à pesquisa e ao desenvolvimento dessa tecnologia”, completou.
Por fim, Almeida enfatizou que, embora a fiscalização esteja se aprimorando, é fundamental que os motoristas também reconheçam a importância de suas ações. “Muitas vezes, eles não lembram que estavam utilizando o celular quando recebem a multa.”
