A Luta pelo Carnaval de Belo Horizonte
Desde seu renascimento em 2009, o Carnaval de Belo Horizonte vem se consolidando como um símbolo de resistência e luta cultural. Reconhecido por seu caráter democrático e popular, o evento agora enfrenta ameaças de cooptação por interesses privados, com o apoio da inércia do poder público municipal e estadual. Segundo Tainá de Oliveira Babeto e Rafael Gregório Malaquias, idealizadores do bloco Transborda e membros da Liga dos Blocos de Rua e de Luta de Belo Horizonte (Liga Bruta), a festa, que sempre foi administrada pelos próprios blocos, agora corre o risco de perder seu aspecto político, essencial para sua essência. “O Carnaval pertence ao povo, e não pode ser mercantilizado”, destacam.
Além disso, outras questões também são levantadas: menos de 20% dos blocos estão sendo contemplados com verbas que mal cobrem suas despesas operacionais, enquanto a venda de bebidas está sendo monopolizada. A determinação arbitrária de trajetos e a busca por atrações nacionais com altos cachês são outros pontos de tensão que refletem a falta de diálogo com os agentes culturais locais.
A História do Renascimento do Carnaval
O ressurgimento do Carnaval em BH está intrinsecamente ligado a um levante popular que surgiu há 17 anos, quando tentativas de proibição do uso de praças públicas provocaram a reação dos cidadãos. O movimento Praia da Estação fez com que as pessoas ocupassem o espaço público, celebrando a cultura e reivindicando direitos, e deu origem aos primeiros blocos de Carnaval, como explica Alcântara. Desde então, o número de grupos e foliões só aumentou, configurando um cenário vibrante de reocupação cultural na cidade.
O Carnaval de BH hoje se destaca como um dos maiores do país, atraindo turistas de Minas Gerais e de outras regiões. Em 2025, a festa recebeu cerca de 6 milhões de foliões, movimentando mais de R$ 1,2 bilhão, além de gerar aproximadamente 20 mil empregos diretos e indiretos. Apesar desse crescimento, os próprios belo-horizontinos e os moradores da região metropolitana são os principais responsáveis pela economia do Carnaval, com estimativas indicando que 80% dos foliões são da área local.
Um Carnaval com Identidade Política
A identidade do Carnaval belo-horizontino está entrelaçada com a luta pelo espaço público e a cultura como um direito. Para Babeto e Malaquias, o Carnaval é uma festa política: “É um renascer que está conectado com as lutas do povo”. Eles enfatizam a importância das camadas populares e o legado histórico que moldou o Carnaval brasileiro, refletindo sobre como esse caráter político precisa ser preservado.
Por outro lado, mesmo com algumas melhorias nas comunicações com a Prefeitura de Belo Horizonte, os organizadores ainda sentem a falta de um diálogo efetivo e horizontal. Existem preocupações quanto à imposição de trajetos e ao financiamento, que ainda é considerado insuficiente. Além disso, as relações com o poder estadual precisam ser aprofundadas.
Desafios no Financiamento e na Parceria Privada
A falta de verbas públicas adequadas é um dos grandes entraves. Dos mais de 600 blocos cadastrados, apenas 105 recebem apoio financeiro, o que deixa a maioria sem acesso a recursos essenciais. Os valores disponibilizados, que vão de R$ 14,6 mil a R$ 41,5 mil, são insuficientes para cobrir despesas básicas de estrutura, como sonorização e segurança. Além disso, muitos blocos enfrentam grandes riscos financeiros devido ao atraso na liberação dos recursos.
Enquanto isso, o governo estadual também é criticado pela falta de transparência e pela má distribuição de recursos em relação à sonorização das vias. Em 2025, a estrutura atendeu apenas 26 blocos, e os gastos são considerados excessivos.
Patrocínios e a Pressão do Setor Privado
Com a declaração de edital de patrocínio privado como deserto, a prefeitura começou a buscar investimentos diretos. O primeiro aporte, de R$ 500 mil, veio da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte, mas ainda assim não é o suficiente para cobrir os custos de um desfile típico. Patrocínios que buscam monopolizar a venda de bebidas têm gerado protestos, e a falta de interesse de grandes marcas em um Carnaval que não se alinha à lógica do lucro levanta bandeiras de alerta.
Valorização do Trabalho Cultural
Fidelis também ressalta que os blocos não podem depender de patrocínios privados para realizar o Carnaval. Ele e outros membros enfatizam a necessidade de reconhecer e valorizar o trabalho cultural contínuo realizado ao longo do ano, principalmente nas periferias. “O Carnaval é um processo cultural permanente e precisa ser tratado como uma política pública estruturante”, concluem. O papel do poder público deve ser de apoio, garantindo infraestrutura e segurança, sem se apropriar do evento.
Por fim, a Liga Bruta reivindica a revisão dos critérios dos editais, buscando ampliar o apoio a blocos e descentralizar os recursos. “O protagonismo deve ser do poder público em fomentar uma cultura de Carnaval forte, onde os blocos sejam respeitados e ouvidos”, afirmam.
