Uma Iniciativa Transformadora
Organizações integrantes da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) realizaram neste ano a construção de 30.466 tecnologias sociais que visam a captação e armazenamento de água, em um dos territórios mais afetados pela emergência climática no Brasil. Essas ações têm trazido esperança para muitos que habitam o Semiárido pernambucano, onde a água é um recurso escasso e precioso.
Nos últimos meses, mais de 150 mil pessoas residentes no interior do Nordeste e em Minas Gerais foram beneficiadas com a entrega de cisternas de placas e barragens subterrâneas. A soma da capacidade máxima dos reservatórios construídos alcança impressionantes 580 mil litros cúbicos de água, o que equivale à capacidade de uma barragem de pequeno a médio porte, ou, em termos mais visuais, mais de 300 mil piscinas olímpicas.
No estado de Pernambuco, foram entregues 3.923 cisternas, cada uma com capacidade para armazenar 16 mil litros. Entre os beneficiados, está Maria Adriana Ribeiro Silva, de 32 anos, moradora da comunidade da Serra do Simões, em Araripina, que agora conta com um reservatório destinado ao consumo humano. Em suas palavras, “Estou muito feliz que até me faltam palavras para explicar o quanto é bom ter essa cisterna, uma coisa que eu não tinha condições [financeiras] de fazer e graças a Deus hoje nós temos”.
Política Pública de Acesso à Água
As cisternas que garantem segurança hídrica a Maria Adriana e a outros 30 mil beneficiários fazem parte do Programa Cisternas, uma iniciativa do Governo Federal. Este programa foi integrado ao Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e é coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), em parceria com o Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e a Fundação Banco do Brasil.
Desde 2003, essa política pública se dedica à democratização do acesso à água no Semiárido, sendo dividida em duas frentes principais: o Programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) e o Programa Uma Terra Duas Águas (P1+2). O P1MC se destaca pela implementação de reservatórios com capacidade para 16 mil litros, voltados para o consumo humano, e 52 mil litros destinados a abastecimento de escolas, com 14 instituições em Pernambuco já atendidas por essa tecnologia.
Por sua vez, o P1+2 é focado na construção de sistemas de 52 mil litros que visam à irrigação da produção agrícola e à criação de animais. Em Pernambuco, 305 locais já foram contemplados por essa iniciativa. Desde o relançamento do Programa Cisternas em 2023, as famílias atendidas pelo P1+2 também foram beneficiadas com recursos do Programa Fomento Rural, que repassa R$ 4,6 mil para apoiar o desenvolvimento de projetos de agricultura familiar, como a instalação de apiários e hortas.
Fortalecendo a Autonomia das Famílias
A coordenadora executiva da ASA, Jardenes Matos, destacou a importância dessas tecnologias: “Essas tecnologias fortalecem a autonomia das famílias, permitem que elas convivam com o Semiárido com mais dignidade e segurança, e mostram que é possível enfrentar a desigualdade hídrica com soluções simples, eficazes e construídas junto às comunidades. Cada tecnologia representa mais justiça social”.
De acordo com Jardenes, a ASA vê a tecnologia não apenas como uma solução técnica, mas como parte de um processo abrangente de mobilização e transformação social. Ela enfatiza que ter um governo que prioriza a convivência com o Semiárido amplia as possibilidades de atender as demandas das famílias rurais, que historicamente foram excluídas das políticas públicas.
Nos últimos dois anos, a Rede ASA implementou 77.757 tecnologias sociais voltadas para a segurança hídrica, beneficiando quase 390 mil pessoas com acesso à água para beber, cozinhar e produzir alimentos no Semiárido brasileiro. A previsão é que, em 2026, as organizações da ASA iniciem a construção de mais 50 mil cisternas de primeira e segunda água, além de restaurar 2,5 mil reservatórios antigos, com um investimento total de R$ 500 milhões, conforme contrato firmado entre a Associação Programa Um Milhão de Cisternas (AP1MC) e o MDS.
