Polarização e a Erosão da Confiança nas Instituições
Pierre Rosanvallon, uma autoridade nos estudos sobre democracia contemporânea, ressalta que a desconfiança dos cidadãos em relação às instituições políticas se intensifica em sociedades polarizadas. Em entrevista à Folha, ele argumenta que o aprofundamento das práticas sociais, como a vigilância sobre as instituições, é essencial para enfrentar essa crise de confiança. Para Rosanvallon, o surgimento do populismo indica que a cultura tornou-se o novo eixo de conflito, transformando a democracia de um espaço de negociação racional em um campo de confrontos movidos por paixões intensas.
Enquanto caminhava pelas ruas de Tiradentes, Rosanvallon relembra suas primeiras viagens à América do Sul, destacando momentos marcantes, como jantares em São Paulo e visitas a Machu Picchu, antes do turismo em massa. Aos 77 anos, o historiador francês, que agora é professor emérito no Collège de France, reflete sobre as transformações democráticas desde os anos 1990. Suas obras, incluindo “A Contrademocracia” e “A Legitimidade Democrática”, analisam a evolução das democracias sem se prender à narrativa de crise de legitimidade.
Revisitando a Democracia em Tempos de Crise
Em sua recente visita ao Brasil, Rosanvallon participou de um seminário na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), onde discutiu seu novo trabalho sobre a história do futuro. Ele argumentou que a incapacidade das sociedades de traduzir previsões em ações efetivas está ligada à crise climática, que, segundo ele, é um dos maiores desafios atuais. Ao mencionar exemplos históricos de degradação ambiental, como o desmatamento na França e a extinção de espécies, Rosanvallon alerta que a modernidade criou uma mentalidade de curto-prazismo que ameaça a sustentabilidade do futuro.
Em sua análise sobre a democracia atual, o historiador enfatiza que a mera realização de eleições não é garantia de vitalidade democrática. Para ele, as eleições estabelecem a legalidade das instituições, mas a verdadeira essência da democracia reside na interação contínua entre o poder e a sociedade. Ele descreve as “funcionalidades democráticas” que vão além do voto, como a vigilância sobre o governo e a representação social. Para Rosanvallon, a democracia deve ser um espaço para a voz do povo, mas também para o “olho do povo”, que garante a supervisão contínua dos mandatários.
Desafios da Participação Popular e a Função dos Partidos
A crescente indiferença política, segundo Rosanvallon, evidencia uma desconexão entre a política tradicional e os cidadãos. Ele sugere que o aumento da abstenção eleitoral reflete um descontentamento com as limitações das instituições democráticas. Assim, é essencial rejuvenescer o engajamento cívico por meio de uma pedagogia política que incentive a participação social e uma maior vigilância sobre os poderes públicos.
O historiador também critica os partidos políticos, que, segundo ele, se tornaram prisioneiros da lógica eleitoral. Embora tenham surgido como estruturas de organização do eleitorado, os partidos atualmente parecem mais preocupados com sua própria sobrevivência do que com a representação genuína dos interesses populares. Essa dinâmica, Rosanvallon afirma, contribui para a polarização, na qual os partidos exploram as divisões sociais para obter vantagens eleitorais.
Os Novos Populismos e a Cultura do Conflito
A análise de Rosanvallon sobre os populismos contemporâneos revela uma mudança significativa: enquanto os populismos do passado, como os de Perón e Vargas, buscavam um forte vínculo com o povo, os populismos atuais muitas vezes dependem do antagonismo e da criação de inimigos. Ele destaca que a linguagem dos populistas modernos se caracteriza pela polarização e pela identificação de ameaças, como o “wokismo” ou imigração, em vez de promover soluções para problemas sociais.
Em suma, a mensagem de Pierre Rosanvallon é clara: a democracia contemporânea enfrenta um desafio crucial. A luta entre a razão e a emoção se intensifica, e a polarização avança. A construção de um futuro democrático requer não apenas a realização de eleições, mas uma reinvenção da interação cívica, que busque fortalecer os laços entre cidadãos e instituições. A compreensão de que a política deve ir além da retórica populista é fundamental para restaurar a confiança nas democracias atuais.
