Os Desafios dos Ex-Vices que Assumem o Comando
As eleições de 2022 marcaram um momento único na política brasileira, com uma onda significativa de reeleições nos estados. Dentre os vinte governadores que buscaram a continuidade no poder, dezoito conseguiram sucesso, resultando em uma taxa impressionante de 90%. Essa situação obrigou muitos governantes a passarem o bastão em 2026, devido à proibição de um terceiro mandato consecutivo. Recentemente, onze chefes de Executivos estaduais renunciaram para abrir caminho para novas possibilidades políticas. Esse movimento deu início a uma corrida pelo poder, onde nove vices assumiram a posição de governadores, já de olho na reeleição em outubro. O desafio é claro: em apenas seis meses, eles terão que se apresentar ao eleitorado e garantir a manutenção no cargo.
Minas Gerais, um dos maiores colégios eleitorais do Brasil e tradicional fiel da balança nas eleições presidenciais, exemplifica bem as dificuldades enfrentadas por esses novos governantes. Mateus Simões (PSD), empossado há menos de três semanas, oscila entre o quarto e o quinto lugar nas pesquisas da AtlasIntel e Real Time Big Data, sem alcançar dois dígitos nas intenções de voto. Embora tenha recebido o apoio do presidenciável Romeu Zema (Novo), que deixou o cargo com uma aprovação acima de 60%, isso ainda não se refletiu em apoio popular para Simões. Ciente da complexidade da situação, o novo governador começou uma turnê por diversas regiões do estado. Até julho, ele planeja visitar vinte áreas, a última delas foi Pouso Alegre, onde anunciou obras e programas, além de mobilizar órgãos públicos para atender a população. Superar os desafios deixados por seu antecessor, que foi reeleito sob a bandeira do bolsonarismo, será um grande obstáculo. “Não há estratégia de marketing que substitua a falta de entregas para a população e a carência de apoios a nível municipal”, observa Eduardo Grin, cientista político da FGV-SP.
A Batalha de Outros Vices pelo Reconhecimento
O cenário em Minas não é uma exceção. Em outros estados, mesmo onde os governadores deixaram seus postos com alta aprovação, as dificuldades permanecem. No Pará, por exemplo, Helder Barbalho (MDB) deixou seu governo com 79% de aprovação, mas sua sucessora, Hana Ghassan (MDB), ainda luta para conquistar a simpatia popular, acumulando apenas 26% dos votos e empatando tecnicamente com Daniel Santos (Podemos), ex-prefeito de Ananindeua. No Espírito Santo, apesar da aprovação de 79% do ex-governador Renato Casagrande (PSB), seu aliado Ricardo Ferraço (MDB) apresenta apenas 35% nas intenções de voto, também empatado com o ex-prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos).
No Distrito Federal, a situação é ainda mais delicada. Celina Leão (PP), que possui cerca de 40% das intenções de voto, encontra-se em uma posição complicada devido ao envolvimento do ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) em um escândalo financeiro, o que pode lhe custar apoio. Por outro lado, em Goiás, Daniel Vilela (MDB) herda um cenário favorável, liderando as pesquisas com quase 20 pontos a mais que seu antecessor, Marconi Perillo (PSDB), em virtude da aprovação de 85% do presidenciável Ronaldo Caiado (PSD).
O Desconhecimento do Eleitor: Um Obstáculo a Ser Superado
Um dos maiores desafios para os novos governadores é o reconhecimento por parte do eleitorado. Embora ocupem posições de destaque na corrida eleitoral, muitos ex-vices continuam sendo figuras relativamente desconhecidas, com baixa exposição pública durante o mandato. Em Minas, uma pesquisa do Real Time Big Data revelou que 36% dos eleitores não conhecem Mateus Simões o suficiente para votar nele. Um percentual similar é observado em relação a Hana Ghassan, no Pará (37%). “O grande público, de fato, ainda não familiarizou-se com esses nomes. Para que uma virada ocorra, a participação ativa do ex-governador na campanha é fundamental”, afirma Paulo Ramirez, cientista político da ESPM.
Vantagens e Desafios da Gestão durante a Campanha
Estar à frente do governo durante o período eleitoral traz vantagens significativas. O controle sobre o orçamento e a estrutura do Estado permite priorizar projetos que podem conquistar a simpatia da população. “É evidente que esses governadores já estão organizando um calendário para inaugurações e eventos públicos que ajudem a aumentar sua visibilidade”, aponta Lucas Thut Sahd, diretor do Real Time Big Data. Ele também observa que é comum que os ex-vices ganhem destaque nas pesquisas conforme se aproxima a eleição. Além disso, a cobertura midiática das atividades governamentais pode impulsionar ainda mais seu potencial eleitoral.
Outra vantagem é o apoio político que podem angariar. As corridas regionais estão intimamente ligadas às estratégias partidárias em assegurar influência nacional. Dos dezoito governadores que almejam a reeleição, catorze pertencem a partidos do Centrão, que buscam ampliar suas representações no Congresso, o que exige a formação de coligações estaduais sólidas e candidatos robustos. Partidos como PSD, MDB, Republicanos, União Brasil e PP têm à disposição recursos significativos do fundo eleitoral e tempo na mídia, fundamentais para compor essas alianças.
A Incerteza do Futuro Eleitoral
Entretanto, o resultado dessa dinâmica permanece incerto. Rodrigo Garcia, por exemplo, assumiu o governo de São Paulo em abril de 2022, após a saída de João Doria, mas não conseguiu chegar ao segundo turno, rompendo um ciclo de quase trinta anos de domínio do PSDB no estado. Em contrapartida, Antonio Anastasia, ex-vice de Aécio Neves, reverteu a situação a seu favor, conquistando a reeleição e solidificando sua imagem, o que o levou a uma vitória no Senado na eleição seguinte.
Para os governadores que recentemente ascenderam ao poder, a pressão do tempo até as próximas eleições é um desafio real, mas não intransponível. Casos recentes demonstram que é possível transformar desconhecidos em candidatos de sucesso ao aliar o uso efetivo da máquina pública a estratégias de campanha eficazes e ao fortalecimento de alianças com lideranças locais e nacionais. Os próximos meses serão cruciais para que esses novos governantes provem sua habilidade em conquistar os eleitores e transformar a continuidade em uma escolha mais segura do que a mudança.
