Desafios da Liderança Feminina nas Prefeituras
Atualmente, Minas Gerais conta com 68 mulheres à frente de prefeituras, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), analisados pelo Núcleo de Dados do Estado de Minas. Em um total de 853 municípios, a presença feminina no comando do Executivo municipal representa menos de 8%. Essa realidade evidencia o motivo pelo qual, em diversas localidades, as mulheres que alcançam tais posições ainda lidam com desconfiança e uma cobrança extra em relação à sua legitimidade política.
É nesse contexto que se insere o primeiro ano de mandato de Suely Pereira (PP), prefeita de São Domingos das Dores, uma cidade com aproximadamente 5 mil habitantes, localizada no Vale do Rio Doce. Suely, a primeira mulher a liderar o Executivo local em trinta anos, relata que o início de sua gestão foi marcado mais por resistências do que por obstáculos técnicos.
A prefeita conta que os primeiros meses foram permeados por tentativas incessantes de descredibilização. De acordo com ela, as críticas eram direcionadas a criar uma imagem de incapacidade em administrar a cidade, indo além do debate político e assumindo contornos de machismo ao associar sua atuação a irresponsabilidades administrativas, sem justificativas técnicas.
Em situações mais extremas, o desrespeito se manifesta de maneira explícita, sendo comum evitar o uso de seu cargo e referir-se a ela apenas como “aquela mulher”. “Tentaram transmitir uma imagem de que eu era irresponsável na gestão. E isso é machismo, uma vez que, em nenhum momento, as ações que tomei foram irresponsáveis”, afirmou ao Estado de Minas.
A descredibilização também se reflete na própria imagem da prefeita. Para escapar de comentários maldosos, Suely optou por uma vestimenta mais neutra, buscando minimizar julgamentos sobre sua aparência e reforçar sua autoridade. “Qual é a minha roupa de trabalho? Uma botinha, calça jeans e uma blusa de malha. Por quê? Para que me vejam como uma figura masculina e, assim, me respeitem mais”, justifica.
Apesar das dificuldades, a experiência acumulada ao longo de anos na gestão pública se mostrou crucial para enfrentar os desafios do primeiro ano. Formada em assistência social, com passagens nas áreas de saúde e educação, além de uma direção em um hospital regional, Suely garante que o machismo não a desanima, embora reconheça o impacto desse ambiente na vida de mulheres que ingressam na política. “Sempre estive envolvida com gestão e não desanimo, porque vejo isso como uma missão. Contudo, para as mulheres que estão começando, é desmotivador, sem dúvida”, desabafa.
Ainda assim, a prefeita acredita que sua gestão conseguiu avançar em várias áreas ao longo do primeiro ano, especialmente em setores que antes eram negligenciados. Ela cita a criação de espaços de lazer infantil, melhorias na infraestrutura rural e ações voltadas à acessibilidade como alguns de seus principais feitos. “Estamos conseguindo provar que a mulher é capaz de gerir”, declara.
Um Teste Constante de Capacidade
Em Carmo da Mata, um município localizado no Centro-Oeste de Minas, a prefeita Mônica (PL) relata experiências semelhantes. À frente de uma cidade com pouco mais de 11 mil habitantes, ela observa que o machismo na política não se apresenta apenas de forma explícita, mas se infiltra de maneira contínua e silenciosa.
Segundo Mônica, o preconceito começa antes mesmo da eleição, refletindo-se na preferência de parte do eleitorado por candidatos homens, independentemente das qualificações ou experiências das mulheres. “Mesmo que seja de forma sutil, isso é relevante. Muitas vezes, as mulheres são vistas como menos capazes ou menos inteligentes. É um teste constante. Estamos sempre sob uma avaliação muito mais rigorosa do que os homens”, afirma.
Essa realidade, segundo Mônica, adiciona um nível extra de dificuldade, exigindo uma prova constante de capacidade enquanto organizava a administração, estruturava processos internos e solidificava a base do governo. Apesar disso, a prefeita considera que seu primeiro ano à frente da prefeitura foi marcado por avanços significativos, otimizando recursos públicos e dando início a obras que estavam paradas, além de garantir novos equipamentos para a cidade.
Superando a Resistência
Na cidade de Rubelita, no Norte de Minas, com cerca de 5,6 mil habitantes, a prefeita Meirinha (Republicanos) analisa que, no ambiente político, o machismo frequentemente associa mulheres à fragilidade e à incapacidade de assumir funções de comando, especialmente na administração municipal. Mesmo vindo de uma família com tradição política – sua mãe foi prefeita por dois mandatos, além de pai e irmão atuarem na vida pública –, ela enfatiza que sua experiência anterior não elimina os desafios enfrentados por mulheres ao assumirem a gestão de um município.
“Minha mãe foi prefeita por dois mandatos, e eu me inspirei nela. As dificuldades existem, e sabemos disso, mas tentamos superá-las através do trabalho, sem dar muita importância a essas questões. Acredito que, após esse primeiro ano, as pessoas já perceberam minha forma de administrar, minha seriedade, e isso tem melhorado bastante a percepção sobre minha capacidade”, conclui Meirinha.
