Cenário Tenso no Congresso Nacional
Com o retorno das atividades no Congresso Nacional pós-Carnaval, as disputas políticas tendem a se intensificar em um ano crucial para as eleições. Entre os principais assuntos em debate, destaca-se a possível criação de uma CPI para investigar o Banco Master, a pressão pela revogação de vetos presidenciais relacionados ao projeto de dosimetria das penas — popularmente conhecido como “anistia para golpistas” — e o avanço da proposta de eliminação da escala 6×1.
A iminente investigação contra o Banco Master está gerando desconforto entre parlamentares que mantêm laços estreitos com Daniel Vorcaro, o controlador do banco. Para evitar a CPI, alguns políticos sugerem uma troca: acelerar a votação dos vetos do presidente Lula em troca do engavetamento da investigação. A cientista política Rosemary Segurado, professora da PUC-SP, sublinha a preocupação com a possibilidade de que investigações mais profundas revelem a extensão das conexões do Banco Master no Parlamento.
“A expressão popular diz que existem cadáveres no armário. E, de fato, o receio é que a abertura desse armário traga à tona informações incômodas. É necessário que uma investigação realmente vá a fundo e revele os possíveis laços do banco com figuras políticas”, afirma Segurado ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.
Ainda segundo a especialista, a gravidade da situação é acentuada pelo uso de prerrogativas parlamentares para pressionar o governo. “Os dados que estão sendo levantados, as personalidades políticas envolvidas, tudo isso demonstra que uma investigação completa é imprescindível”, destaca.
Ela também menciona a situação de pessoas comuns que confiaram suas economias ao banco e perderam dinheiro no processo. “Não podemos ignorar as vidas e os recursos de cidadãos que, como nós, acreditavam que seus investimentos estavam seguros”, complementa.
A Polêmica da Anistia para Golpistas
Outro ponto de tensão é o projeto que visa alterar a dosimetria das penas para os envolvidos nos eventos golpistas de 8 de janeiro de 2023. Segurado acredita que a pressão popular pode influenciar significativamente o andamento desse projeto, como já ocorreu anteriormente. “Quando a proposta de dosimetria surgiu, o impacto foi impressionante. É uma forma disfarçada de anistia para aqueles que atacaram a democracia”, ressalta.
Ela observa que a mobilização nas ruas foi determinante para que algumas votações refletissem um posicionamento contrário aos defensores do golpismo. “A sociedade deve deixar claro que não há espaço para ações que ameacem os pilares da democracia”, afirma.
Sobre o papel do STF, a professora é enfática: “O tribunal já se posicionou diversas vezes contra a constitucionalidade desse projeto. Se o Supremo não agir, estará ferindo seu princípio de defender a Constituição e, consequentemente, a democracia”, acrescenta.
Conflitos Internos e Desafios à Direita
As disputas internas no campo bolsonarista, especialmente entre o clã Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira, têm gerado atenção. Contudo, Segurado acredita que isso ainda não afetou a base eleitoral mais fiel. “Os números das últimas pesquisas indicam que, apesar das intrigas, a marca Bolsonaro continua forte”, analisa.
Ela observa que a maior parte dos eleitores não está atenta a esse embate interno e que as principais mudanças podem ocorrer devido ao debate eleitoral e a questões que possam manchar a reputação de figuras como Flávio Bolsonaro. “Nikolas Ferreira, por sua vez, está tentando medir seu prestígio político e considera se candidatar ao governo de Minas Gerais, embora não haja consenso sobre isso dentro do PL”, explica.
Segurado conclui que Ferreira está aproveitando este momento para solidificar sua posição dentro da dinâmica familiar e política. “Ele demonstra ambição e um desejo urgente de aumentar seu capital político”, afirma.
A Escala 6×1 e o Lobby da Faria Lima
A proposta que busca eliminar a escala 6×1 está ganhando força no Congresso, mas enfrenta forte resistência do setor empresarial. Um estudo recente da FGV que tenta distorcer dados sobre as horas trabalhadas, insinuando que os brasileiros são “preguiçosos”, gerou críticas. Segurado refuta essa narrativa. “É uma construção social que perpetua a ideia equivocada de que os trabalhadores brasileiros não se dedicam”, argumenta.
Ela defende a capacidade de trabalho dos brasileiros e critica a exploração do trabalho. “Os trabalhadores têm direito a condições dignas, lazer e tempo em família. O lamento de que a jornada de 40 horas é excessiva precisa ser reavaliado considerando a realidade de países como a Alemanha, onde a jornada é de 35 horas”, diz Segurado.
Além disso, ela enfatiza que a intensificação do lobby da Faria Lima será evidente conforme a proposta avance nas votações. “O ano eleitoral cria um ambiente delicado para votar contra os direitos dos trabalhadores. Os parlamentares sabem que decisões impopulares podem ter consequências nas redes sociais”, observa.
Por fim, Segurado critica a postura da Folha de S.Paulo, que deu espaço para o estudo distorcido da FGV. “Política não deve ser feita com chantagens. O debate deve ser franco e aberto, sem pressões”, conclui.
