Aposta no Legado e na Base Evangélica
Após quatro décadas na política carioca, Eduardo Cunha (Republicanos-RJ), ex-presidente da Câmara dos Deputados, se apresenta como pré-candidato a deputado federal por Minas Gerais, mesmo sem um partido definido. Ele investe em sua reputação como o responsável pelo impeachment de Dilma Rousseff e visa conquistar o eleitorado evangélico conservador, um segmento que hoje é alvo de disputas acirradas entre diferentes grupos políticos.
Em uma entrevista exclusiva ao Estado de Minas, Cunha afirma que não pretende apoiar sua candidatura em promessas, argumentando que essa é uma prática comum a quem ainda não exerceu um mandato. “Quem já foi tudo e protagonizou um processo de impeachment de um presidente da República não precisa prometer nada. Minha bandeira é a minha atuação”, declarou.
Para o político, sua mudança para Minas não representa um novo começo, mas uma continuidade de sua trajetória. Desde que se estabeleceu em Belo Horizonte, no ano passado, ele transferiu suas atividades profissionais para o estado. Segundo Cunha, não faria sentido tentar conquistar votos no Rio de Janeiro, onde sua filha, Dani Cunha (União Brasil), já ocupa um cargo e herda seu eleitorado. “Tive meu trabalho interrompido. Quero retornar para continuar. Não é voltar, é continuar”, afirmou, referindo-se à sua cassação em 2016, em meio a escândalos da Operação Lava Jato.
Construindo Relações Políticas em Minas
Mesmo sem nunca ter disputado uma eleição em Minas, Cunha defende que vem cultivando relações políticas no estado há anos. “Sou conservador, cristão, liberal e a favor das privatizações. Minas tem uma economia voltada ao agronegócio e ao setor mineral, e é vital estar atento a essas demandas”, comentou.
Para aprofundar suas raízes fora do Rio, ele concentra esforços na base evangélica. Cunha admite que esse é o segmento no qual se sente mais à vontade, tendo investido na expansão de rádios evangélicas em Minas, seguindo uma estratégia que remete ao início de sua carreira parlamentar. Desde 2024, pelo menos seis novas emissoras fazem parte de sua rede no estado, atuando em áreas como Grande BH e Triângulo Mineiro. “E vamos chegar a outros lugares”, garantiu.
Concorrência no Eleitorado Evangélico
Essa movimentação coloca Cunha em uma posição delicada, já que o bolsonarismo domina grande parte do eleitorado evangélico em Minas, representado por figuras como o deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o deputado estadual Bruno Engler (PL), também pré-candidato à Câmara. Contudo, ele minimiza essa competição. “Não precisamos disputar, tem voto para todos”, afirma, ressaltando que o sistema eleitoral proporcional permite uma diversidade de candidaturas dentro do mesmo segmento religioso. “O povo evangélico vai buscar outras alternativas para aumentar sua representação. Não precisa ser todo mundo no mesmo candidato”, acrescenta.
Definição Partidária em Aberto
Ainda não está claro qual partido Cunha escolherá para sua candidatura em Minas. Embora esteja filiado ao Republicanos, ele destaca que a entrada no partido ocorreu em um contexto diferente, sem conexão com seu projeto mineiro, e que não se preocupa em permanecer na legenda. “Só ficarei no Republicanos se a chapa for conveniente para mim e se eles me aceitarem”, esclarece.
Admitindo diálogos com várias siglas, Cunha afirma que a definição deve ocorrer apenas no final de março. Após ser rejeitado pelo Podemos, rumores indicam uma possível aproximação com o PP e o PL, mas ele evita confirmar qualquer negociação. “Estou conversando com muita gente”, resumiu.
Críticas ao Governo Lula
Na esfera política nacional, Cunha mantém uma postura crítica em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), acusando-o de ter abandonado o discurso de pacificação após as eleições de 2022. Para ele, Lula optou por intensificar a polarização como estratégia de sobrevivência. “Não tem nada de Lulinha paz e amor. Ele sempre foi Lula, guerra e cacete”, disparou.
Cunha associou essa visão aos eventos do 8 de janeiro de 2023, considerando os envolvidos como “baderneiros” e “malucos”, ainda que responsabilize Lula pela falta de ação para conter a situação. Ele critica a permanência de acampamentos golpistas e afirma que, se fosse presidente, teria agido rapidamente. “Lula permitiu aquilo porque queria que acontecesse”, conclui.
Sentimento de Retaliação
Cunha se autodenomina “preso político” e argumenta que sua condenação na Operação Lava Jato foi uma retaliação pelo impeachment de Dilma, episódio do qual não se arrepende. “Só me arrependo de não ter feito antes”, afirmou, reiterando sua convicção de que a presidente cometeu crime de responsabilidade fiscal.
Questionado sobre o impacto de seu histórico na candidatura em Minas, Cunha se mostra confiante, acreditando que seu embate com o PT e a imagem de quem “tirou o partido do poder” trarão benefícios eleitorais entre conservadores e evangélicos. “O eleitor que não deseja o PT vê em mim uma opção efetiva. Tenho essa vantagem, não um prejuízo”, finalizou, revelando que frequentemente escuta agradecimentos nas ruas por sua atuação passada.
