A Corrida Eleitoral em Minas Gerais
A política em Minas Gerais está longe de ser simples. Com uma situação financeira precária e pouco espaço para novos investimentos, a disputa pelo governo do segundo maior colégio eleitoral do Brasil transformou-se em uma plataforma para partidos tradicionais. Caciques da direita e da esquerda buscam alianças que fortaleçam suas candidaturas no Congresso e na Presidência, mesmo que muitos dos nomes cogitados não estejam prontos ou interessados em concorrer ao Palácio da Liberdade.
Enquanto isso, algumas lideranças locais que sobreviveram aos escândalos do Mensalão e da Lava Jato, como Gabriel Azevedo (MDB) e Mateus Simões (PSD), tentam demonstrar que Minas ainda pode oferecer candidatos com propostas sólidas e articulação política.
“Nos últimos anos, a política mineira tem sido dominada pela antipolítica, o que facilitou o surgimento de candidatos que se focam em pautas individuais, em contraste com grupos coesos com experiência administrativa,” comentou Zuza Nacif, um marqueteiro atuante no estado há duas décadas, que já trabalhou para figuras como Aécio Neves e Lula.
Desafios e Oportunidades para os Candidatos
O ambiente eleitoral de Minas é de interesse nacional, dada sua importância histórica na política do Brasil e a mistura de características das regiões Sudeste e Nordeste. No entanto, nos últimos tempos, a política local tem sido ofuscada pela agenda nacional, e as eleições para o governo do estado, que já foram disputadas por nomes icônicos como Tancredo Neves e Juscelino Kubitschek, parecem mais um espetáculo para candidatos a outros cargos.
Um dos poucos representantes da direita mineira que se destacou recentemente, Nikolas Ferreira (PL), era visto como o favorito de Bolsonaro e Valdemar Costa Neto para a disputa ao governo, mas prefere continuar sua atuação na Câmara dos Deputados, o que deixou Flávio Bolsonaro sem um candidato claro em Minas.
Flávio Roscoe, presidente da Fiemg, é considerado uma opção para liderar ou integrar uma chapa, enquanto Cleitinho Azevedo (Republicanos), uma figura em ascensão na política local, anunciou sua pré-candidatura ao governo, mesmo sem experiência executiva e com um mandato no Senado até 2030. Um estudo recente da Paraná Pesquisas revela que Cleitinho lidera as intenções de voto com 45,6%, seguido por Rodrigo Pacheco (PSD) com 18,4%, Mateus Simões com 8,7% e Gabriel Azevedo com 6,2%.
O Papel das Lideranças e as Expectativas Futuras
Apesar das dúvidas sobre sua capacidade de gestão, Cleitinho é visto como um herdeiro do bolsonarismo e pode se beneficiar ao formar uma chapa com um candidato vice respeitado no setor empresarial, como Roscoe, ou até migrar para o PL, dependendo das alianças que se formarem na esfera nacional.
Analistas políticos também acreditam que o cenário eleitoral em Minas pode refletir o que ocorrerá em Belo Horizonte em 2024, onde a esquerda pode ser excluída, resultando em um embate entre a direita tradicional e as alas bolsonaristas. Essa é a aposta de Mateus Simões e Gabriel Azevedo.
Ambos têm raízes nas administrações do PSDB, sob a liderança de Aécio Neves, e tentaram unir forças em um contexto de cortes de gastos. No entanto, sua parceria se desfez quando o bolsonarismo se tornou a principal força da direita, levando Mateus a se alinhar com a narrativa do ex-presidente e Gabriel a se afastar dela.
Mateus, que é vice de Zema e pré-candidato à presidência, terá acesso à máquina pública a partir do próximo mês, mas enfrenta a dificuldade de engrenar nas pesquisas. Sua popularidade existe, mas não é suficiente para assegurar a eleição de um sucessor sem uma forte base de apoio. Flávio Bolsonaro não parece animado com seu nome.
Além disso, com 142 prefeituras em Minas, o PSD poderia fornecer a estrutura necessária para seu candidato, mas Gilberto Kassab parece mais focado em eleger deputados federais do que apoiar uma candidatura ao governo.
Estratégias e Cenários em Transformação
Outra possibilidade para Mateus é que Zema não lance um sucessor, fazendo uma aliança para ser vice de Flávio Bolsonaro. Gabriel Azevedo, por sua vez, tenta consolidar sua posição como pré-candidato de um MDB dividido, buscando parcerias com o PSDB e a federação União Progressista, composta por União Brasil e Progressistas.
Entretanto, Rodrigo Pacheco, favorito de Lula, precisará trocar de partido caso decida se candidatar, uma vez que atualmente está no PSD, e suas opções mais viáveis são o MDB ou o União, onde pode encontrar apoio.
Gabriel, que já começou sua pré-campanha, afirma que Pacheco não tem intenção de concorrer ao governo e que não aceitaria uma vice-candidatura, pois isso poderia ofuscar sua imagem. No entanto, fontes próximas ao governo indicam que Pacheco é visto como a única opção para liderar a candidatura de Lula em Minas e que a União Progressista tem a estrutura necessária para recebê-lo.
Um analista ouvido pelo Brazil Journal acredita que as chances de vitória para Pacheco são limitadas, mas um acordo com Lula em troca de uma futura indicação ao STF poderia ser vantajoso. A prefeita de Contagem, Marília Campos, a principal liderança do PT em Minas, deve concorrer ao Senado, em meio a uma necessidade crescente de vitórias para o partido, especialmente em um cenário marcado por um possível crescimento do bolsonarismo.
A disputa ao Senado também ganhou relevância sem precedentes, uma vez que pode ser crucial para processos de impeachment de ministros do STF. Alexandre Silveira (PSD), atual ministro de Minas e Energia, pode ser um candidato “sacrificado” nas eleições estaduais, caso Pacheco decida não apoiar Lula.
Embora o quadro atual possa parecer definido, as incertezas políticas ainda predominarão nos próximos meses, refletindo as articulações que se desenrolam em Brasília. Mesmo Nikolas Ferreira, o parlamentar mineiro mais influente no momento, pode acabar seguindo as decisões de Valdemar e Flávio em nível nacional.
“Embora o Nikolas atue de forma independente, se não se envolver nas articulações de sua base política, corre o risco de se isolar,” observou um consultor. Além disso, as investigações em curso sobre o Banco Master, que podem impactar significativamente as eleições, oferecem mais complicações às negociações.
Portanto, o dia 4 de outubro ainda parece distante para os mineiros, como bem diz um conhecido ditado local: “por trás de um morro, sempre há outro morro”.
