Decisão Polêmica na Câmara Municipal
A Câmara Municipal de Santa Luzia tomou uma decisão controversa no início de dezembro de 2025, ao excluir a única vereadora da Casa, Suzane Almada, da composição das comissões permanentes para o ano de 2026. Essa ação, aprovada pela maioria dos vereadores, reacendeu um debate sobre representatividade e igualdade de gênero no Legislativo, em um contexto onde a presença feminina em cargos públicos é alarmantemente baixa. Santa Luzia é uma das 1.629 cidades brasileiras que contam com apenas uma mulher ocupando uma cadeira no Parlamento municipal.
Dos 21 vereadores, apenas quatro — Glayson Johnny (Avante), Junin do Lau (Podemos), Nandinho (PP) e Fernando Ariston (PL) — votaram a favor da inclusão da vereadora nas comissões. Essa votação evidencia o isolamento político de Suzane Almada e suscitou questionamentos sobre os critérios utilizados para a ocupação de posições estratégicas dentro da Câmara.
O Papel das Comissões Permanentes
As comissões permanentes desempenham um papel essencial na estrutura legislativa, sendo responsáveis pela análise técnica dos projetos de lei, fiscalização das ações do Executivo e elaboração inicial das políticas públicas. Na prática, são instâncias que influenciam diretamente o andamento e o conteúdo das matérias legislativas. Para Suzane Almada, a sua exclusão representa um golpe não apenas em sua carreira, mas também nas prerrogativas que a acompanham como parlamentar. “Ao me impedir de participar das comissões, a Câmara me retira da fase mais decisiva do processo legislativo. Isso é uma supressão de prerrogativas parlamentares”, afirmou.
A vereadora também criticou a decisão pelo desdém aos critérios técnicos e acadêmicos dos membros da Casa. Com formação na área de educação, Suzane é a única parlamentar da atual legislatura com essa qualificação, que é fundamental para discutir temas como infância, juventude, políticas sociais e cultura, todos relevantes para a esfera legislativa. “É incoerente que, em comissões que analisam projetos com profundo impacto social, não se considere a qualificação técnica. A educação é a base para a formulação de políticas públicas”, declarou.
Repercussão e Críticas ao Machismo Estrutural
A exclusão da vereadora Suzane Almada, segundo ela, revela um problema mais profundo: o machismo estrutural ainda presente na política brasileira. “O que permeia essa decisão é uma lógica que historicamente marginaliza as mulheres do poder. Quando a única mulher do Parlamento é excluída das instâncias decisivas, não se pode tratar isso como algo trivial”, disse.
Para Suzane, a ausência feminina nas comissões tem um impacto direto na qualidade do debate legislativo, comprometendo a pluralidade de ideias. “Sem mulheres nesses espaços, perdemos uma visão mais sensível e abrangente sobre temas cruciais como educação e direitos sociais”, ressaltou.
Outro ponto criticado pela vereadora foi a falta de diálogo durante o processo que levou à formação das comissões. “A democracia exige escuta e respeito às diferenças. O que aconteceu foi uma decisão unilateral que perpetua práticas excludentes e fragiliza a própria estrutura institucional da Câmara”, afirmou.
O Chamado por Mudanças
O caso ganhou visibilidade na cidade, chamando a atenção não apenas para o isolamento de uma parlamentar, mas também para a fragilidade dos critérios de representatividade adotados pela Câmara. Suzane destacou que Santa Luzia já enfrenta um problema significativo de sub-representação feminina, e ignorar esse contexto nas decisões é uma forma de perpetuar desigualdades.
O Coletivo Luzias em Luta, um grupo de mulheres da cidade, manifestou sua indignação através de um manifesto que critica a exclusão da vereadora. No documento, o coletivo afirma que essa decisão esvazia a atuação feminina e fere princípios democráticos, como a igualdade e a proporcionalidade. Além disso, enfatiza que as mulheres representam cerca de 54% do eleitorado local e que a presença feminina nas esferas decisórias é um direito legítimo.
O manifesto considera a exclusão um caso de violência política de gênero, que limita o exercício do mandato e reforça a ideia de que as mulheres são dispensáveis na política. O Coletivo Luzias em Luta reivindica que a Câmara reanalise seus critérios e garanta a participação da vereadora nas comissões, assegurando assim condições justas para o exercício da representação que lhe foi conferida pelo voto.
