Impactos da Pandemia na Saúde Pública Brasileira
Nos últimos 30 anos, o Brasil apresentou um notável avanço em sua saúde pública, com a mortalidade reduzida em mais de um terço e a expectativa de vida aumentando em média sete anos. Esse progresso, atribuído principalmente à diminuição de doenças infecciosas e cardiovasculares, foi abruptamente interrompido pela pandemia de covid-19. Essa é a conclusão de uma pesquisa coordenada pela professora Deborah Carvalho Malta, do Departamento de Enfermagem Materno-Infantil e Saúde Pública da Escola de Enfermagem da UFMG, recentemente publicada na revista científica The Lancet Regional Health – Americas.
Os dados do estudo, que faz parte da Carga Global de Doenças (GBD) 2023, analisaram diversos indicadores de saúde, como mortalidade, carga de doenças e expectativa de vida nas 27 unidades federativas do Brasil entre 1990 e 2023. “A pesquisa teve como objetivo avaliar as alterações nos dados de saúde antes, durante e após a pandemia, examinado o impacto da covid-19 nos anos de 2020 e 2021, bem como a recuperação do país até 2023. Os resultados fornecem uma das avaliações mais abrangentes até o momento sobre os indicadores de saúde no Brasil”, destacou a professora Deborah.
Desafios Persistentes e Novas Ameaças
A pesquisa revelou que as doenças arteriais coronarianas (DAC) e os acidentes vasculares cerebrais (AVC) continuam sendo as principais causas de mortalidade no país. Além disso, o índice de massa corporal (IMC) elevado se tornou o principal fator de risco contribuindo para a carga de doenças em 2023, superando a hipertensão arterial, que havia sido o principal fator em 2021.
Os resultados do estudo serão apresentados em um evento no dia 6 de abril, com a participação de especialistas da UFMG e da Universidade de Washington. A transmissão ocorrerá pelo canal do Centro de Telessaúde HC-UFMG no YouTube, às 17 horas.
Reflexos da Pandemia na Saúde da População
Os dados apontam que o padrão de aumento da expectativa de vida e a redução das principais causas de morte, observado entre 1990 e 2019, foi severamente afetado pela pandemia. Entre 2019 e 2021, houve um aumento de aproximadamente 28% na mortalidade, e os anos de vida ajustados por incapacidade (DALY) aumentaram em 18%. A covid-19 se tornou a principal causa de morte e carga de doença nos anos de 2020 e 2021, com disparidades significativas nos impactos conforme as regiões, condições socioeconômicas e gênero. Enquanto os transtornos de ansiedade passaram a ser a principal causa de DALYs entre as mulheres em 2023, a violência interpessoal se destacou entre os homens.
Segundo a professora Malta, as desigualdades regionais nas condições de saúde durante a pandemia refletem desigualdades históricas nas condições de vida e na capacidade do sistema de saúde nas diferentes regiões brasileiras. “De 1990 a 2023, os estados do Sul e do Sudeste apresentaram as maiores melhorias a longo prazo e os menores retrocessos devido à pandemia, enquanto estados como Amazonas, Roraima e Rondônia registraram aumentos superiores a 50% na mortalidade padronizada por idade”, explicou.
O Caminho a Seguir para a Saúde Pública
A professora Malta também mencionou que, apesar da tendência global de queda na expectativa de vida durante a pandemia, o impacto variou em diferentes magnitudes pelo país. A redução foi mais acentuada em Rondônia, com 6,01 anos, seguido por Amazonas e Roraima. Em contrapartida, os estados do Nordeste apresentaram as menores quedas na expectativa de vida, resultado de medidas efetivas de saúde pública que foram adotadas por seus governantes.
O estudo ainda indicou que a mortalidade foi maior nos estados onde as respostas à pandemia não obedeceram consistentemente às orientações de saúde pública, como a adesão baixa ao uso de máscaras e a vacinação inadequada. “A pandemia de covid-19 causou um retrocesso de 3,4 anos na expectativa de vida dos brasileiros, revertendo décadas de progresso. Isso poderia ter sido minimizado com uma abordagem mais coordenada e baseada em evidências científicas”, concluiu a professora.
De acordo com Malta, os resultados ressaltam a resiliência do Sistema Único de Saúde (SUS), mas ressaltam a necessidade urgente de políticas públicas focadas na equidade e na preparação para futuras emergências de saúde. Ela enfatizou que os próximos anos devem priorizar ações voltadas para promover um envelhecimento saudável, inovar no manejo de doenças crônicas, retomar programas de imunização e preparar o sistema de saúde para crises futuras.
