Uma Nova Jornada Artística
O renomado escultor Ricardo Carvão Levy, que iniciou sua trajetória em 1979, marca seu retorno ao Palácio das Artes com a exposição ‘Forma, espaço e matéria’. Graduado em arte e com forte vínculo com Belo Horizonte, Levy, aos 76 anos, revive memórias e emoções de sua primeira mostra na Grande Galeria do espaço, onde, aos 30 anos, decidiu se misturar ao público para captar as ‘reais impressões’ das pessoas. Para isso, ele passou a frequentar o local de forma anônima, o que gerou diversas histórias, sendo a mais marcante a de um operário que, ao avistar suas obras em meio ao cotidiano, se emocionou ao descobrir que era o autor.
“Era hora do almoço, e ele passou correndo pelo passeio. Olhando através do vidro, admirou as obras e decidiu entrar. Perguntou se precisava pagar, e eu disse que ele poderia ficar à vontade. Ele saiu encantado, dizendo que aquilo havia brilhado seu dia, e que estava quase esquecendo do trabalho,” relembra Levy, com um brilho no olhar. O impacto da arte sobre o operário foi tão profundo que ainda lhe pediu: ‘Leia para mim o que você escreveu, não sei ler.’ Este momento, quase quatro décadas depois, ressoa na nova exposição que será inaugurada nesta quinta-feira (8/1), às 19h, no andar inferior do Palácio.
Espaços e Obras em Destaque
A nova mostra conta com cerca de 20 esculturas distribuídas por quatro áreas distintas do Palácio das Artes: a galeria aberta Amilcar de Castro, o café, o passeio Niemeyer e os jardins internos. Esta primeira parte da exposição é apenas o começo, já que uma segunda fase deve ser apresentada após o carnaval, trazendo novas obras para apreciação do público.
Diferente de suas experiências passadas, Levy não pretende mais visitar a exposição de forma anônima. No entanto, ele planeja aparecer ocasionalmente, pois acredita que a interação com o público é fundamental para sua obra. O artista é amplamente reconhecido por uma série de monumentos, em especial pelo icônico ‘Monumento à paz’, localizado na Praça do Papa, que impressiona com seus 24 metros de altura e 92 toneladas de aço.
A curadora da exposição, Cynthia Rabello, destaca que, embora Levy seja conhecido por suas obras públicas, muitos desconhecem sua dedicação à reutilização de materiais em suas criações. “Sua preocupação com a preservação da natureza remonta à sua infância em Belém, onde teve contato direto com a floresta e os rios,” afirma.
Inspiração e Criações Inéditas
A decisão de Levy de se tornar artista surgiu após uma viagem ao Museu Nacional de Antropologia na Cidade do México, na década de 1970. “Para ele, a forma não é apenas uma questão de estudo, mas algo que nutre o espírito. Sua inspiração remonta às culturas pré-colombianas que ele conheceu no México,” comenta a curadora.
Uma das obras inéditas da exposição, intitulada ‘O suspiro da mata’, foi criada a partir de sobras de aço e evoca uma floresta em chamas. Além disso, a série ‘Tubismo’ reúne sete obras construídas com filtros de poços artesianos, todas produzidas entre as décadas de 1980 e 1990.
Na mesma linha, um cubo feito de tela de aço e alumínio será instalado nos jardins do Palácio, enquanto uma obra cinética, que explora o jogo de luz e sombra, será exposta no café. A famosa maquete do ‘Monumento à paz’ também fará parte da mostra, permitindo que os visitantes apreciem a grandiosidade do projeto.
Reflexões e Legado
Levy reflete sobre sua conexão com a natureza e a sociedade, revelando que costumava subir a Serra do Curral para contemplar a beleza ao seu redor. “Eu via a Mata do Jambreiro, intacta, e do outro lado, a cidade de concreto. Isso me fez pensar sobre como muitos buscam o sucesso por caminhos ilícitos, e se eu pudesse deixar uma mensagem de paz, seria através da arte,” explica.
Após a visita do Papa João Paulo II em 1980, Levy ganhou um concurso para criar uma escultura na Praça Governador Israel Pinheiro, onde, em poucos meses, o ‘Monumento à paz’ foi inaugurado durante uma Missa do Galo no Natal de 1982. A primeira exposição no Palácio, segundo o artista, surgiu de uma sugestão do crítico Márcio Sampaio, que viu potencial em seu trabalho e acreditou que uma mostra individual seria necessária. Ele dedica a atual exposição a Sampaio, que recentemente celebrou seus 85 anos.
