A Importância do Festival de Roterdã
O cineasta Kleber Mendonça Filho, conhecido por seu trabalho inovador, possui uma lembrança especial em seu celular: uma foto antiga que captura um momento histórico. Na imagem, ele aparece ao lado de Maeve Jinkins e Pedro Sotero, a protagonista e o diretor de fotografia de seu premiado filme “O som ao redor” (2012), em frente ao complexo de cinemas do Festival de Roterdã, onde sua primeira obra de ficção teve sua estreia mundial. O sucesso do filme foi possibilitado graças ao apoio recebido do Fundo Hubert Bals, um programa que existe desde 1988 para auxiliar jovens cineastas de países em desenvolvimento. Para Kleber, essa mostra representou seu primeiro contato com o cenário internacional, e agora, com a indicação de “O agente secreto” a quatro Oscars, ele simboliza a ascensão do cinema brasileiro no exterior.
O cineasta celebrou a impressionante marca de 2 milhões de ingressos vendidos por “O agente secreto” em sua terra natal. Sua presença em Roterdã não foi apenas uma comemoração, mas também uma oportunidade de promover seu filme durante a 55ª edição do festival, que se encerrou no último domingo (8) com o reconhecimento de obras como “I swear” do britânico Kirk Jones, ganhador do prêmio do público, e “Variations on a theme” dos sul-africanos Jason Jacobs e Devon Delmar, que recebeu o cobiçado troféu Tiger de melhor filme.
Uma Nova Iniciativa para Cineastas Brasileiros
A presença de Kleber em Roterdã coincidia com o anúncio de dez projetos selecionados para a edição piloto do HBF+Brasil, uma extensão do fundo projetada exclusivamente para cineastas brasileiros. “Minha relação com o Festival de Roterdã é longa. Não vejo isso como um desvio na minha campanha para o Oscar; na verdade, falar sobre ele é promovê-lo”, destacou o cineasta. Ele, que é um defensor ativo de iniciativas que incentivam novos talentos, participou de um painel juntamente com a diretora espanhola Carla Simón, que apresentou “Alcarrás” (2022). “Desde ‘O som ao redor’, eu acredito que um filme é uma grande oportunidade para mostrar rostos e contar histórias sobre o nosso país”, afirmou.
Lançado no Festival de Cannes do ano anterior, o HBF+Brasil busca ampliar a diversidade de narrativas e personagens brasileiros que Kleber mencionou. A iniciativa é fruto da colaboração entre o Fundo Hubert Bals e entidades de apoio ao cinema nacional, como Spcine, RioFilme e Projeto Paradiso, e é voltada para cineastas que estão em seu segundo ou terceiro longa-metragem, com uma produtora local já associada. Entre os projetos selecionados, destacam-se “Brasa”, de Marcelo Caetano; “Enquanto não voltam”, de Anita Rocha da Silveira; e “Laguna”, de Maurílio Martins, cada um recebendo uma bolsa de 10 mil euros.
A Sustentação da Produção Audiovisual Brasileira
A criação desse fundo especial reforça a sólida relação entre o cinema brasileiro e o Festival de Roterdã, que tem sido um dos principais apoiadores da produção audiovisual do Brasil ao longo dos anos. Desde 2011, o HBF financiou mais de 40 projetos brasileiros, totalizando um investimento superior a 4,5 milhões de reais, consolidando o Brasil como o maior beneficiário na história do fundo. O festival já foi palco de importantes conquistas para o cinema nacional, como o caso de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, que obteve o prêmio do público em sua edição anterior, depois de triunfar em Veneza e no Globo de Ouro.
Tamara Tatishvili, diretora do Hubert Bals Fund, ressaltou a evolução do cinema contemporâneo brasileiro em um encontro com representantes da comitiva brasileira em Roterdã. “O Brasil está vivendo uma grande onda de cinema contemporâneo, com uma diversidade de visões artísticas que se destacam internacionalmente”, comentou. O HBF+Brasil surgiu após um levantamento realizado em São Paulo, que identificou a necessidade de mais financiamento para desenvolvimento na região e possibilitou novas oportunidades para cineastas brasileiros.
Transformações na Carreira de Cineastas
Cineastas como Karim Aïnouz, que está concorrendo ao Urso de Ouro em Berlim com “Rosebush pruning”, creditam sua trajetória ao apoio do HBF. “Eu nunca imaginei que faria cinema, mas minha carreira mudou após conseguir um prêmio para desenvolver o roteiro de ‘Madame Satã’ (2002). O apoio do festival foi o que me fez acreditar que o projeto era viável”, relembra Aïnouz sobre sua experiência em Roterdã, onde recebeu os primeiros incentivos para seu trabalho.
Marcelo Gomes também compartilhou sua experiência positiva com o HBF, destacando como o apoio do festival foi crucial para filmes que ele coescreveu, como “Cinema, aspirinas e urubus”. “Esse prêmio foi fundamental para nós, nordestinos, em um período em que era bastante desafiador levantar recursos fora do eixo Rio-São Paulo”, concluiu Gomes, ressaltando a importância do HBF como um selo de qualidade internacional.
Projetos Selecionados pelo HBF+Brasil
Entre os projetos selecionados pelo HBF+Brasil, destacam-se:
- “Bicho”, de Madiano Marcheti
- “Brasa”, de Marcelo Caetano
- “Enquanto não voltam”, de Anita Rocha da Silveira
- “Irmã mais velha”, de Rafaela Camelo
- “Laguna”, de Maurílio Martins
- “Um longo despir-se”, de Pedro Geraldo
- “Múmia tropical”, de Lucas Parente
- “Olhos de Yara”, de Lincoln Péricles Pinto
- “Papiloscopista”, de Carlos Segundo
- “Sobre noix”, de Luciano Vidigal
